O Coala Festival celebrou sua terceira edição no último sábado, no Memorial da América Latina. Multifacetado, cheio de ritmos e com estilo próprio, o evento se firma no calendário paulistano do segundo semestre como uma celebração à música, sem se prender a estilos.

Prova disto é a seleta gama de artistas que foram chamados para a tarefa de levar música ao público que se enturmava na fila de entrada desde as 13h, para mais de 10 horas de música, sem intervalos, com shows e DJs, intervenções artísticas e culturais e bastante diversão.

Bem utilizado, o Memorial cabe bem a mistura que o Coala propõe: um bom palco ao alcance de todo o público, em que os DJs e artistas se revezavam, grandes tendas com comidas e bebidas, food trucks para aquela fominha de guloseimas específicas e barracas com artesanato, intervenções das marcas patrocinadoras e até estúdio de tatuagem. Não dava para reclamar de falta do que fazer ali no meio.

Mas, vamos para o que importa? Os shows!

Silva

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Com parte do show dedicada a seu último lançamento, Júpiter, Silva via seu público cair nas graças de seu disco anterior, Vista pro Mar, que ganhava a preferência do público a cada lembrança. Se a própria “Júpiter”, que abriu o evento e o show, e seguinte, “Sufoco”, ganharam pontos com uma platéia já cheia de gente que estiva no local simplesmente para ver o Silva, não dava para não comparar a empolgação do público quando os primeiros acordes de “É Preciso Dizer” começaram a tocar, quando se ouvia gritos e coros de vozes.

Também é necessário admitir: canções como “Feliz e Ponto”“Notícias” ganharam o público cantarolante que se unia em pequenos grupos para dançar com os amigos. Mas era só surgir “Janeiro”, “2012” ou “Entardecer” para se perceber que o público também tem suas preferidas.

Fica para o cantor o mérito inquestionável de encher o Memorial às 14h da tarde de um festival com previsão de último show para às 21h30, o que mostra que seu público é um dos mais fiéis possíveis.

Lila

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Estreante em festivais e fazendo uma de suas primeiras apresentações em São Paulo, Lila trouxe uma importante adição ao festival que se destaca por apoiar a cena independente.

Com suas canções que misturam covers e músicas próprias e passeando pelo pop, samba e MPB, a cantora apresentou canções de seu primeiro EP como “Strobo”, “Dinda” e “Aparição” e covers simpáticos como o quase samba em que transformou “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, do Clube da Esquina e “De Ladinho”, da Ivete Sangalo.

A musicista carioca parecia tímida no palco e encerrou sua apresentação tocando uma música inédita, composta recentemente e apresentada como uma resposta à misoginia e à falta de respeito com as mulheres: “Não é Não” foi bem recebida pelo público do festival, que ao final até cantou o refrão ajudando a moça. Ponto pra ela!

Céu

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Seja apresentando canções de seu mais recente disco Tropix, criando versões com ritmo “tropix” para canções de discos anteriores, como o Vagarosa por exemplo, ou passeando pelo palco enquanto dança segura de si entre as músicas de sua vasta e encantadora discografia, Céu dominava cada centímetro do palco, com a certeza de quem tem muito a mostrar, no início da noite de sábado.

Entre os pontos altos de sua apresentação estiveram o momento em que ela percebeu o grito da galera, mais forte e cada intervalo de canções e incentivou: “Estou vendo que está difícil segurar esse grito aí, então, vamos lá!” ouvindo como resposta o sonoro “Fora Temer!” que todos já tinham na ponta da língua, ainda com mais força.

A dedicação da música “A Nave Vai” foi para a filha Rosa, que escreveu a canção com ela mesmo sem saber, e o batuque de “Arrastar-te-ei”, já dominada pelo público que cantava junto, teve um coro sem interrupções.

Cícero e Marcelo Camelo

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A gente não sabia muito bem o que esperar desse show, mas dá para dizer que foi uma das melhores apresentações do Coala. Cícero abriu seu show com músicas do último disco, A Praia, como “O Bobo”, ganhando os gritinhos e a animação da plateia já em seus primeiros minutos de palco. Já muito próximo do público, não houve qualquer surpresa com a inclusão da música “Tempo de Pipa”, no meio de “Pra Animar o Bar”, num pot-pourri a ele mesmo, coisa de Cícero.

Algumas músicas depois, o carioca chamou o outro carioca da noite para fazer a festa: Marcelo Camelo subiu ao palco e juntos os dois representantes do “indie-rock da Zona Sul do Rio”, como diria mais tarde Camelo, tocaram “Hey Nana”, da Banda do Mar, última empreitada musical de Camelo com sua esposa, Mallu Magalhães e o baterista português Fred Ferreira.

Daí pra frente, acompanhados pelos músicos da banda de Cícero que contava entre outros grandes nomes com Gabriel Ventura, da VentreCairê Rego, do Baleia, Camelo e Cícero misturaram canções diversas de suas carreiras com novos arranjos e novas vozes, trocaram milhares de elogios e fizeram os amantes daqueles chamados “netos e bisnetos” de Chico Buarque ganharem mais momentos memoráveis para se lembrar.

O ponto alto da apresentação da dupla, e também seu final, foram é claro a inclusão de “Conversa de Botas Batidas”. Seja a saudade de Los Hermanos, a beleza da música ou a emoção de ver os dois cantando juntos um grande clássico da nossa juventude, era possível ver muita gente chorando de qualquer lugar do Memorial em que você pudesse passar.

Ao sair do palco e ouvir o público gritar o já tradicional grito de intervalos “Fora Temer!”, Camelo fez questão de voltar correndo dos bastidores para o microfone mais próximo e gritar o seu “Com certeza, fora Temer!”, antes de ser ovacionado pela plateia e novamente sair do palco. Após a saída de Camelo, Cícero continuou sua apresentação, com grandes canções como “Açúcar ou Adoçante”, “Frevo por Acaso Nº2” “Por Botafogo”, sempre acompanhado pela plateia.

BaianaSystem

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Com seu batuque misturado ao som das pick-ups, as máscaras azuis e amarelas que já tomavam conta dos rostos da galera mais perto do palco e a batida poderosa dos instrumentos da cozinha baiana, o BaianaSystem trouxe muito peso para o Coala Festival.

Apresentando músicas de seus dois discos, mas explorando as canções do mais recente, Duas Cidades, o Baiana foi mais uma voz no coro de artistas e público que se manifestavam contra o atual governo. Entre faixas como “Playsom” “Terapia”, o vocalista Russo Passapusso pediu ao público para não deixar seus direitos de lado: “Esse é o nosso momento, temos que lutar, não podemos deixar nossa liberdade morrer”, disse o moço em uma das ocasiões.

Karol Conká

Karol Conká

A rapper Karol Conká foi a última a se apresentar no palco do Coala Festival e chegou cheia de atitude. Recebida por seu DJ com trilhas que enalteciam sua beleza e talento, a moça subiu ao palco agradecendo a todo mundo que estava lá até o momento para vê-la e começou a festa!

Com canções como “É o Poder” e “Gandaia”, a cantora fez o baile da representatividade no festival, reforçando os temas que estão sempre presentes em seu repertório. Uma dentre tantas canções com essa temática é “Mundo Loco”, em que Karol aproveitou para mandar um belo “Fodam-se os padrões” defendendo todas as formas de beleza e o bem estar acima de qualquer coisa.

Um show cheio de closes certíssimos, de muita rebolatividade e de muita representatividade só poderia acabar tombando todo mundo, não é mesmo? Então, já que é pra tombar, como diria Karol, tombei!

Um festival politizado

Seja pelo mais recente evento da política nacional, a efetivação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, pela ascensão do vice Michel Temer à presidência, pelo temor de que rumos o nosso país tomará neste momento, pela proximidade com as eleições municipais e o entrave que a população paulista vive entre seus preferidos à prefeitura da cidade ou pela mistura de todas essas emoções, o Coala Festival teve grandes momentos em que a política falou quase tão alto quanto a música.

Seja na brincadeira de usar as tintas em neon para propagar o nome de seu candidato a vereador ou prefeito, para estampar na face o pedido por “Diretas Já”, “Fora Temer” e tantos outros, nos sets dos DJs que entre as músicas brasileiras relembraram grandes clássicos de Caetano e Chico Buarque durante o período da Ditadura Militar ou nas duras críticas de praticamente todos os artistas presentes ao nosso sistema político nacional, à queda de Dilma e à ascensão de Temer, e o pedido claro de insatisfação inânime, que clama pela saída do presidente interino.

Unindo todas essas forças, dá para dizer que o Coala também ficará na memória do público paulistano como um momento de paz e música, em que muito se falou sobre os rumos do nosso país, encorajando quem ainda não tinha muita certeza sobre a necessidade de ir à luta por direitos que não devem ser perdidos.