“Não se cale. Denuncie. Ligue 180”.

A chamada, escrita em texto branco sobre fundo preto, poderia pertencer a um videoclipe hipotético de “Maria da Vila Matilde”, canção interpretada por Elza Soares em A Mulher do Fim do Mundo, álbum excepcional lançado no ano passado. Na música, Elza clama, com o característico timbre rasgado, que o companheiro do eu-lírico feminino da música “vai se arrepender de levantar a mão pra [ela]”. Exaltado como um dos grandes lançamentos na história recente da música brasileira, o disco de Elza foi além da obra, e inflamou debates sobre o sexismo em diversos setores da sociedade, especialmente entre as elites econômica e intelectual do país, mais próximas da MPB de vanguarda do disco.

O letreiro também poderia integrar uma performance do Xanaxou, coletivo musical feminino e feminista que tem feito apresentações exuberantes e intensamente políticas no underground carioca, reunindo composições originais e versões de clássicos da MPB para repelir o machismo onipresente. Faz parte da performance, por exemplo, a simulação de um parto e a ridicularização em torno de “Samba da Bênção”, hino exemplar do machismo escrito por Vinícius de Moraes (“Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher / Feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor / e pra ser só perdão”). Vê-las é presenciar um ato político e poético, sempre. São reflexo maduro e latente da insurgência feminina recente ao redor do mundo. Mal dá para crer que o Xanaxou existe há poucos meses – é como se estivessem nos palcos há muito tempo.

Por fim, poderíamos ver a frase estampar algo na identidade visual de MC Carol, funkeira carioca conhecida por “Meu Namorado É Maior Otário” (“meu namorado é mó otário / ele lava minhas calcinhas / se ficar cheio de marra mando ele pra cozinha”). Recentemente, Carol adotou tons políticos na bombástica “Delação Premiada”, onde critica a postura assassina da polícia nas favelas, o trabalho jornalístico cretino de boa parte da imprensa e os acordões políticos aos quais ficamos mal-acostumados. Carol já admitiu ter sido mantida em cárcere privado pelo namorado ciumento, e descobriu-se feminista após ter as letras aclamadas por movimentos ligados ao feminismo no Brasil. Não conhecia o conceito nem em teoria.

Mas nem um, nem outro. Cegado pelos meus privilégios de classe, de raça e de gênero, me surpreendi ao ver o letreiro descrito lá em cima encerrando “Ele Bate Nela”, clipe lançado em maio de 2014 pela dupla sertaneja Simone e Simaria. Eu nunca tinha ouvido falar nas duas até pouquíssimo tempo atrás, apesar das dezenas de milhões de visualizações que os clipes das duas colecionam no YouTube. Simone e Simaria (pronuncia-se Simária) são representantes de uma nova geração da música sertaneja onde cantoras e duplas femininas têm cada vez mais espaço de protagonismo no mercado, e não só isso: voz ativa e de importante impacto social.

Além delas, Maiara e Maraisa, Marília Mendonça, Paula Mattos, Bruna Viola e muitas outras. Uma geração de mulheres muitas vezes de origem pobre, e que mesmo sem levantarem explicitamente a bandeira do feminismo e evitarem associações com a atuação política de maneira geral, são agentes da representatividade. Uma safra de cantoras cada vez mais próximas do protagonismo no mercado fonográfico, amplamente dominado por cantores e duplas masculinas ao longo das últimas décadas. É chegada a primavera das mulheres no mercado musical.

Nos últimos dias, vimos a carreira do cantor Biel ir aos ares. Depois de ser denunciado por assediar uma jornalista, o cantor pediu desculpas mal-ensaiadas no YouTube. A repórter assediada, a única vítima na história, perdeu o emprego. Biel, ensinado inconscientemente pela impunidade inerente ao homem branco nos nossos círculos, fez piada com o caso. Se disse vítima. Foi descoberto como racista, homofóbico, transfóbico e misógino em tweets de alguns anos atrás. Até que hoje (04) de manhã, anunciou uma pausa na carreira por tempo indeterminado, com rescisão do contrato com a Warner Music, gravadora que o lançou nacionalmente.

Biel largou a escola aos 16 por incentivo da família. Não terminou o segundo grau motivado pelo pai, dono de boate, e pegou carona no sucesso recente do encontro entre o funk e o pop eletrônico de nomes como Anitta, Valesca, Guimê e Ludmilla pra fazer carreira, ganhar um troco vaidoso. Inspirado em Justin Bieber, virou fenômeno de redes sociais, trilha de novela, símbolo sexual até dos homossexuais que ridicularizou anteriormente. O pacote completo.

Biel nunca sofreu por falta de dinheiro. Não foi ridicularizado pela orientação sexual, pela cor da pele, nunca foi profissionalmente diminuído ou humilhado por ter nascido homem. Biel, como ser humano ou como profissional, reflete a propagação do mais do mesmo, do status quo, do sistema que permanece igual. Fruto da máquina de fazer dinheiro do mercado fonográfico.

Representatividade

O vídeo mais assistido no canal de Biel no YouTube ultrapassa 85 milhões de visualizações à data de publicação deste texto. Aproximadamente 170 vezes mais que o vídeo mais assistido de A Mulher do Fim do Mundo, 31 vezes mais que o vídeo mais visto de MC Carol e 567 mil vezes mais que a mais vista das três perfomances do Xanaxou disponíveis no por lá. Mas “apenas” quatro vezes mais visto que o clipe de “Ele Bate Nela”, o segundo mais visto do canal de Simone e Simaria. Se alguém coleciona números para enfrentar a força do machismo de artistas como Biel, são elas. E é por isso que a representatividade no sertanejo e em qualquer outro estilo popular de massa importa tanto.

Rechaçado por muitos pelo excessivo apelo comercial, o sertanejo é o estilo musical de maior alcance no país: desde o auge da popularidade do sertanejo universitário, há cerca de dez anos, o estilo avançou como avalanche sobre gêneros de massa como o forró, o funk e o axé, os incorporou e segue cada vez mais forte. É, em grande parte, fruto de uma produção seriada, feita sim para consumo massificado a qualquer custo, com letras frequentemente questionáveis que ironizam o alcoolismo, o assédio e que promovem a manutenção do machismo. Aproxima-se, assim, do funk pop de Biel, estilo que também sofre de muitos problemas similares. Mas quando vemos uma geração inteira de mulheres ocupando lugares antes exclusivos a homens, é preciso reconhecer o início de uma mudança ampla que toma força aos poucos.

Ídolos são espelhos para os milhões de fãs que os seguem, e por isso, representatividade importa. É bonito ver que além de Liniker, As Bahias e a Cozinha Mineira, Karol Conká e Rico Dalasam, as transformações começam a chegar aos cantos do Brasil onde as discussões do palanque virtual não chegam. Não seria o máximo ver um cantor sertanejo assumidamente gay gritar versos sofridos de amor? Ou uma dupla trans que dê visibilidade aos homens e às mulheres trans do interior do país, onde o sertanejo predomina? Não seria o máximo se o funk e o pop deixassem de lado a misoginia para promover o respeito, mesmo quando prega a diversão e o descompromisso? É essencial que tenhamos referências empoderadoras quando ligamos a TV, acessamos a internet ou frequentamos um festival. Pelo mesmo motivo, é louvável que o público e a indústria fonográfica comecem, ainda que lentamente, a compreender que na nossa sociedade não há mais espaço para outros como Biel. Acabou.

Ilhados pelas “bolhas” das redes, vivemos através de filtros sociais que permeiam nosso convívio diário – o racismo, o classismo e o sexismo, entre outros – e vemos que, principalmente se quisermos rever nossos conceitos em um país diverso como Brasil, é preciso fugir daquilo que é automaticamente esperado de nós. É preciso repensar nossos ídolos, mesmo os do porte de Vinícius. É preciso quebrar paradigmas diariamente, pois não importa o que façam ou deixem de fazer; daqui, ninguém volta pro armário.