“Não chame de jazz, isso é apenas uma palavra que inventaram. Chame de social music“. A frase em questão é dita por Don Cheadle em Miles Ahead, a cinebiografia inédita no Brasil de Miles Davis, dirigida e protagonizada pelo próprio Cheadle. A frase em si nunca foi dita por Miles – ao menos não há registros óbvios disso –  mas captura a essência do gênero musical mais livre, provocante e ousado do século XX, e que revela-se ainda inovador no raiar do novo milênio.

Depois de relegado à obscuridade comercial e limitado a uma vanguarda artística de nicho, o jazz ganhou novo significado com a explosão do movimento hip-hop, da cultura dos samples e da música eletrônica do fim dos anos 1980 para cá. Mutante e de natureza política e questionadora desde as origens, o jazz chega aos anos 2010 fundido à eletrônica, à nova era da psicodelia, ao funk e ao R&B, estilos derivados das sementes do próprio jazz, e prova-se muito mais que um estilo musical de um período no tempo, mas uma das principais forças motrizes da cultura pop, com alcance e repercussão global.

Na lista que você vê a seguir, o Faixa Título selecionou 15 álbuns lançados de 2010 para cá que explicam a trajetória do jazz nas últimas duas décadas, e que antecipam os rumos do estilo nas que virão. Há, claro, trabalhos imensamente importantes ausentes da lista, mas esses 20 oferecem um belo panorama do que veremos pela frente. Bom proveito!

Austin Peralta – Endless Planets (2011)

Um prodígio do piano, Austin Peralta nos deixou cedo demais, aos 22 anos. Antes disso, felizmente, lançou Endless Planets, um álbum que transita livremente pelo virtuosismo do jazz e pela escola J. Dilla de beats singularmente fluidos. Foi o primeiro álbum de jazz lançado pelo selo Brainfeeder, do Flying Lotus, de quem falaremos logo mais. Inclusive, Austin compôs “DMT Song”, música que saiu em Until The Quiet Comes (2012), quarto álbum do Flying Lotus, reimaginada por Peralta e banda na versão acima – filmada no show que o californiano fez em São Paulo poucos meses antes de morrer, vítima de uma pneumonia.

GoGo Penguin – Man Made Object (2016)

Desde os tempos dourados do trio clássico de Bill Evans, com Scott LaFaro e Paul Motian, não se via um trio com tanto apelo dramático como o GoGo Penguin. Com levadas quase dançantes mas nunca óbvias, o trio inglês acaba de lançar Man Made Object, o terceiro álbum da carreira, que expande os temas apresentados com excelência no anterior, v2.0 (2014).

BADBADNOTGOOD – III (2014)

O que acontece quando três jovens canadenses estudantes de jazz resolvem se juntar para celebrar o amor mútuo pelo hip-hop, pelo indie e pela eletrônica? O BADBADNOTGOOD. Apadrinhados inicialmente por Tyler, The Creator e toda a turma do Odd Future, o trio despontou com dois álbuns focados em versões de A Tribe Called Quest, Kanye West, Joy Division, James Blake (em uma releitura de “The Limit to Your Love” da Feist), My Bloody Valentine e vários outros. Em 2014, lançaram o excepcional III, um disco primoroso que vai do hard-bop ao post-dubstep sem vacilar. No ano passado, o grupo lançou Sour Soul, álbum em parceria com o rapper Ghostface Killah, e em julho lançam o ótimo IV (que vazou na semana passada e você acha com facilidade no serviço pirata de sua preferência, caso queira).

Thundercat – The Beyond / Where The Giants Roam (2015)

Há quem diga que Thundercat é o maior baixista da atualidade. Reconhecido inicialmente como parceiro musical de Erykah Badu, Flying Lotus, Bilal e até do Suicidal Tendencies (!), Thundercat é dono de um estilo único, facilmente reconhecível, sempre deixando espaço para as composições ganharem forma – seja no jazz, no hip-hop ou na música eletrônica de vanguarda. O mundo ajoelhou aos pés dele pela primeira vez com Apocalypse (2013), seu segundo álbum, mas a consagração veio com o sucesso do single “Them Changes”, de The Beyond/Where The Giants Roam (2015), e a participação crucial dele em To Pimp a Butterfly (2015), de Kendrick Lamar.

São Paulo Underground – Beija Flors Velho e Sujo (2014)

Há pelo menos uma década, o free jazz é o ponto de encontro entre ritmos brasileiros, fusion e psicodelia no São Paulo Underground, grupo formado pelo tecladista Guilherme Granado, pelo trompetista americano Rob Mazurek, pelo multi-instrumentista Maurício Takara (Hurtmold, Instituto), e ocasionalmente acompanhado pelo baterista Richard Ribeiro.  Meu preferido deles é Beija Flors Velho e Sujo (2014), de onde saiu “Evetch”, replicada em uma poderosa versão ao vivo no vídeo acima.

Esperanza Spalding – Emily’s D+Evolution (2016)

Esperanza Spalding é provavelmente uma das musicistas mais versáteis do planeta. Depois de discos influenciados diretamente pelo jazz clássico dos anos 1960, pela bossa-nova, pela música de câmara e pelo R&B, a baixista ressurgiu recentemente no avassalador Emily’s D+Evolution, uma divagação astral pelas galáxias dos melhores momentos do fusion e do rock progressivo. Soa confuso? A princípio, sim. Mas Emily’s D+Evolution, quando apreciado com calma e profundidade, é uma roleta sem fim de boas surpresas.

Christian Scott aTunde Adjuah – Yesterday You Said Tomorrow (2010)

Christian Scott, posteriormente rebatizado Christian Scott aTunde Adjuah em respeito aos antepassados dele escravizados no sudeste americano, é um dos grandes trompetistas desta geração do jazz. Sem medo de abraçar influências distintas, que vão de Radiohead à música cubana, Christian era apenas mais uma promessa do jazz até lançar o impecável Yesterday You Said Tomorrow (2010), onde ele ampliou as fronteiras do novo jazz muito bem acompanhado por uma banda incrível, que o acompanha na versão de “K.K.P.D.” do vídeo acima. Vale dar atenção à versão dele para “The Eraser”, de Thom Yorke, e aos dois álbuns seguintes dele, o duplo Christian Scott aTunde Adjuah (2012) e o eclético Stretch Music (2015).

Flying Lotus – You’re Dead! (2014)

Steven Ellison, mais conhecido pelo codinome Flying Lotus, é um dos maiores expoentes do jazz no novo século, mesmo atuando essencialmente como produtor eletrônico. Sobrinho-neto de Alice e John Coltrane, Ellison adotou desde o início da carreira o espírito de livre improvisação do jazz como foco central da carreira, influenciada tanto pelo universo de corte e colagem do hip-hop como por uma devoção cega por desenhos animados e videogames. O primeiro álbum, 1983, saiu há dez anos; desde então, Ellison fundou o selo Brainfeeder (responsável por vários lançamentos desta lista), lançou discos excepcionais (com destaque para You’re Dead!, de 2014) e tornou-se parceiro recorrente de Thom Yorke, Thundercat, Kendrick Lamar e Kamasi Washington, com uma influência inegável em diversos estilos musicais. Vez ou outra ele também se arrisca como rapper, sob o pseudônimo Captain Murphy.

Kamasi Washington – The Epic (2015)

Mais uma aposta de Flying Lotus no Brainfeeder, Kamasi Washinton surgiu no mesmo universo musical de Thundercat, em noites de improviso em bares de Los Angeles. A oferta de ter um álbum solo lançado pelo Brainfeeder surgiu anos atrás, e mesmo lisonjeado, Kamasi alertou que o disco iria demorar para ser construído. Em 2015, o trabalho finalmente veio à luz: The Epic, um arrasa-quarteirões com quase três horas de duração, moldado pelo prisma do jazz, mas com influências que vão do gospel à world music. Também se destacou pela performance no To Pimp a Butterfly de Kendrick Lamar, fato que o transformou em um dos nomes mais populares da história recente do jazz.

Metá Metá – MetaL MetaL (2011)

Um dos grupos mais afiados da música brasileira na atualidade, o Metá Metá une a interpretação vocal singular de Juçara Marçal ao sax perfurante de Thiago França e às guitarras dissonantes de Kiko Dinucci, tudo em uníssono em um amálgama de jazz, afrobeat e religiões afro-brasileiras. Político e instigante, o grupo alcançou a aclamação da crítica com a cólera de MetaL MetaL (2011), segundo álbum do trio paulistano. Nas próximas semanas o grupo lança o terceiro disco, provisoriamente intitulado MM3. ATUALIZAÇÃO (25/05): a banda acaba de disponibilizar MM3 para download gratuito no site oficial do Metá Metá.

Donny McCaslin – Fast Future (2015)

O grupo do saxofonista Donny McCaslin era pouco conhecido além dos círculos de jazz, mas tudo mudou em janeiro de 2016, com o lançamento de Blackstar, o último álbum de David Bowie. Bowie descobriu o grupo após assistir a uma apresentação de McCaslin em Nova Iorque, e convocou o quarteto para ajudá-lo a produzir as canções de Blackstar. Em Fast Future, o álbum mais recente do quarteto, os destaques são os fraseados eloquentes de McCaslin e a perfomance espetacular do baterista Mark Giuliana.

Robert Glasper Experiment – Black Radio (2012)

Robert Glasper é um dos grandes produtores, arranjadores e compositores da nova geração do jazz. Após firmar-se como um grande pianista em quatro elogiados álbuns, Glasper se aproximou de vez do hip-hop e do R&B com a série Black Radio, que já conta com dois volumes repletos de parcerias com cantores, cantoras e rappers como Erykah Badu, Lupe Fiasco e Yasiin Bey. Para os não-iniciados, as releituras de faixas como “Smells Like Teen Spirit” (Nirvana, vídeo acima), “Never Catch Me” (Flying Lotus e Kendrick Lamar) e “Reckoner” (Radiohead) são excelentes portas de entrada.

Hiatus Kaiyote – Choose Your Weapon (2015)

O Hiatus Kaiyote é uma das melhores bandas para se ver ao vivo, hoje. O quarteto australiano criou uma fusão de soul, jazz, R&B e eletrônica que passa longe da abstração técnica em privilégio de canções agradáveis, marcadas pelo impressionante alcance vocal da vocalista Nai Palm. Em 2015, o grupo lançou o segundo álbum da carreira, Choose Your Weapon.

Snarky Puppy – We Like It Here (2014)

Fundado pelo baixista Michael League em 2004, o Snarky Puppy é praticamente um dream team de músicos profissionais em atividade nos Estados Unidos. Com formação mutante, o grupo é na verdade um coletivo composto por dezenas de músicos liderados sob a batuta de League, um admirador de ícones como Pat Metheny, Chick Corea e Hermeto Pascoal. Em abril, o grupo lançou Culcha Vulcha, primeiro álbum de estúdio em oito anos, mas é ao vivo, como no CD e DVD We Like It Here, que o Snarky Puppy justifica a aclamação que recebe em todo o planeta.

Kneebody/Daedelus – Kneedelus (2015)

Em atividade desde o início dos anos 2000, o Kneebody é um quinteto conhecido por recriar estilos como o rock, o pop e o hip-hop em uma linguagem mais próxima do jazz, com técnica de sobra e arranjos extremamente complexos. Tudo isso também pode ser encontrado no trabalho do produtor californiano Daedelus, com quem o Kneebody se juntou para criar Kneedelus, álbum lançado pelo Brainfeeder (de novo!), que explora cuidadosamente os limites da criação musical tanto no campo analógico quanto no digital.

Por ora, é só. Se achar que faltou algum disco ou quiser trocar uma ideia sobre, passa lá nas redes sociais do TMDQA! ou na página do Faixa Título no Facebook.