Fernando Anitelli (O Teatro Mágico)
 

Allehop!” é uma antiga expressão circense utilizada antes de apresentações, que significa algo como “vamos trabalhar, construir, realizar”. É, também, o nome do quinto disco de estúdio de um dos projetos que mais trabalham e realizam no atual cenário da música nacional: O Teatro Mágico.

Antecipando o show de lançamento do disco, que ocorre hoje em São Paulo, conversamos com Fernando Anitelli, a mente por trás da ‘trupe’ que une música, dança, artes plásticas, poesia e outros meios de expressão artística em apresentações cheias de cores e empolgação. O músico paulista fala sobre o ciclo do novo álbum, o que mudou ao longo dos 13 anos de carreira, opina – como bom defensor da música gratuita – sobre as alternativas à pirataria e muito mais.

Leia abaixo!

o teatro mágicoTMDQA!: Aos treze anos de carreira O Teatro Mágico lançou cinco discos, contando agora com o Allehop. Esse álbum tem uma influência mais eletrônica, uma sensibilidade bem pop comparado com os outros. O que você pode dizer que mudou do primeiro disco pra cá, tanto na música quanto na sua ética de trabalho e na forma de levar a carreira?
Fernando: De 2003 pra cá obviamente mudou muita coisa. Cada álbum é como se fosse uma peça de teatro, um filme: você pode ter o mesmo diretor, mas os atores, enredo, conceito, textura, tudo isso vai mudar. Ao longo desses treze anos aprendemos muita coisa, e caminhar de forma paralela ao mercado é um esforço danado. Manter um projeto independente depende de parcerias, do seu público, de pesquisas, e tem que trabalhar constantemente em favor de tudo isso.

Claro que, se colocar um álbum do lado do outro, vamos perceber muitas diferenças entre eles. Acho que os anos passam e cresce cada vez mais nossa responsabilidade de trazer coisas interessantes, construtivas, positivas, de expor debates que às vezes não são comuns dentro do nosso cotidiano da música pop, pra que não vire ‘arte pela arte’, puro entretenimento. Nunca foi esse o papel d’O Teatro Mágico.

TMDQA!: Além do álbum, saiu há pouco tempo o clipe da música “Deixa Ser”, e agora tem esse show de lançamento do disco em São Paulo. Como está sendo o ciclo de lançamento do Allehop?
Fernando: Tá sendo como qualquer outro lançamento. Preparamos uma música com clipe, soltamos as músicas nas redes, trabalhamos com o público mostrando os bastidores, como tudo aconteceu, e assim conseguimos ir, devagar, semeando esse trabalho. Com lançamentos novos, sempre tem uma parte da galera que fica meio em dúvida, uma parte que mergulha junto com a gente e outra que preferia as coisas como eram antes, que tem um amor mais “conservador”.

Diria que 80% tem gostado muito e mergulhou junto com a gente. 15% ainda tá se decidindo e 5% quer que eu tenha cabelo, 20kg a menos, e faça só voz e violão. E isso é natural. Mas no geral estamos felizes da vida, porque todo processo novo de lançamento é gás novo, saúde, inspiração, vontade de fazer as coisas. Tem um público gigante na fila, tem gente ainda chegando, então é com muita inspiração que lançamos o Allehop.

TMDQA!: A formação da banda passou por algumas mudanças ao longo da carreira, e a atual tá aí desde 2014. Como vocês trabalham isso? A visão artística que você tem no momento e a disponibilidade dos integrantes são fatores decisivos?
Fernando: O Teatro Mágico tem, desde o começo, a característica de tratar cada álbum como se fosse uma peça de teatro. Trabalhamos com elementos da dança, do circo, poesia, música, artes plásticas… tudo isso molda a pluralidade que é a nossa trupe. Pra manter isso vivo durante treze anos, algo que sempre tivemos como uma constante foi a nossa mutação.

Nunca tivemos a mesma formação, e essa era a ideia desde o início: cada álbum com um groove, uma performance diferente. Isso se dá mediante os conceitos sonoros e performáticos que temos em mente na hora, e pela relação dos músicos com as próprias carreiras individuais. Todo mundo que toca n’O Teatro Mágico é um compositor com carreira separada, e é preciso muita dedicação pra que esse projeto tenha oxigênio. Vemos isso como algo muito sadio, e é uma das nossas grandes surpresas: você nunca sabe o que pode esperar!

TMDQA!: Ao longo da existência do grupo, ele sempre manteve esse conceito de arte circense, de expressão corporal e performática. Você vê isso mudando futuramente ou O Teatro Mágico sempre vai ser enraizado nessa essência que a gente já conhece, com outras ideias ficando reservadas pra algum projeto paralelo?
Fernando: A gente trabalha de uma maneira plural. Isso tá na raiz, sempre vai ser assim. Pode colocar os álbuns e DVDs um do lado do outro e vai ver que tudo se transforma. E isso continuará assim. O Teatro Mágico tem a parte lúdica, a parte crítica, a parte de humor, a romântica, a pop, enfim. Essa colcha de retalhos é que remonta o corpo dessa trupe, e você sempre vai encontrar dentro de cada departamento desses um universo gigante de possibilidades.

Em relação à possibilidade de outros projetos, eu tenho um álbum solo chamado As Claves da Gaveta (2011), feito paralelamente ao Teatro Mágico. Ainda sou produtor musical. Tudo isso soma à nossa maneira de trabalhar com música e de se envolver com as pessoas. Temos que conciliar as coisas que nos surgem de uma maneira comum, pra que possamos fazer tudo sem deixar nada de lado.

TMDQA!: Você sempre se mostrou defensor da liberdade de divulgar arte sem a necessidade de colocar um preço nela, principalmente pelo movimento Música Para Baixar. Qual sua opinião a respeito desse ascensão dos serviços de streaming? Mesmo sabendo que eles pagam pouco aos artistas, pelo menos em comparação à venda de discos, eles ainda são a única alternativa realmente efetiva à pirataria?
Fernando: Acho que temos que batalhar sempre por uma porcentagem digna e por uma transparência nesses negócios online. Afinal, se estão ganhando em cima de um trabalho seu, você também tem a sua fatia e faz parte desse ciclo. A questão é que o streaming não é a única alternativa: hoje em dia o vinil tá voltando, tem gente se interessando por fita cassete, o CD ainda resiste… então as possibilidades são variadas, e a questão é como você se relaciona com cada uma delas.

O Teatro Mágico tem todas: você pode conseguir ela de graça no nosso site, pode ter um disco de vinil comprado no show, um CD com making of, um combinado com tudo… então é preciso criar os desdobramentos da sua música e fazer com que essas ferramentas trabalhem ao seu favor, entendendo como elas funcionam. A música livre não prejudica os artistas. Ela faz o trabalho se espalhar, porque se ninguém ouve o artista, ele não existe. A ideia é termos controle sobre nosso próprio trabalho, como ele é distribuído e por onde passa.

TMDQA!: O álbum foi lançado, vocês tão lançando clipes, fazendo alguns shows… o que tá programado pra depois disso?
Fernando: Nesse momento a gente tá fazendo o pré-lançamento do Allehop, que consiste em tocar algumas músicas do álbum, mostrar algumas ideias de performance, junto com os sucessos dos outros álbuns. Vamos fazer isso em algumas cidades agora e parar por um mês e pouco, já que estávamos em turnê revisitando o Entrada Para Raros (2008). Então vamos parar para fazer uma pesquisa, preparar bem e voltar em agosto com a turnê, de fato, do Allehop.

TMDQA!: Você tem mais discos que amigos?
Fernando: Sem dúvida alguma tenho mais discos. Muitos mais discos. Cada amigo que tenho me traz uma bagagem de discos, e é através deles que eu sou, que eu me faço.

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