Faixa Título: a atemporalidade de “Opinião”

Hino involuntário contra o regime militar, a composição de Zé Keti tornou-se ainda mais relevante nos dias de hoje

 

Vivemos tempos estranhos. Em plena turbulência política, o país está torto, tonto, sem rumo. No último domingo (17), vimos um verdadeiro show de horrores transmitido ao vivo, diretamente do Congresso Nacional. Há de se convir, independentemente de orientação política, que a exaltação de torturadores e do golpe militar de 1964 foi o choque de realidade mais aterrorizante da história recente do país. Mas se vamos falar de 1964, que falemos de outro 1964 também: da resistência imposta pela cultura.

A partir do fim dos anos 60, com o regime militar em curso e endurecido, uma safra excepcional de canções de resistência à ditadura surgiu. O Brasil lembra frequentemente de “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores”, música lançada por Geraldo Vandré em 1968 que tornou-se o principal hino de resistência ao golpe. A discografia de Chico Buarque inteira é um desfile de dribles aos censores (“Cálice”, “Acorda Amor”, “Deus Lhe Pague” e, claro, “Apesar de Você” são alguns exemplos óbvios), e autores como Sérgio Sampaio (“Bloco Na Rua”) e Gonzaguinha (“É”, “Comportamento Geral”) injetaram em suas composições, direta ou subliminarmente, ideais contrários ao impostos pelo regime. A lista é enorme, e incrivelmente interessante. Mas uma música lançada naquele mesmo 1964, composta antes mesmo do golpe, talvez seja um dos atos de resistência mais belos e melancólicos da nossa MPB: “Opinião”, composta por Zé Keti e interpretada originalmente por Nara Leão.

Escrita como trilha para a peça de mesmo nome que entrou em cartaz no fim daquele ano, “Opinião” foi feita com o governo do Rio de Janeiro em mente. Na época, havia um plano de remover alguma favelas da cidade, e Zé Keti escreveu “Opinião” como uma resposta a essa ideia, como evidenciado pelo verso “daqui do morro eu não saio não”. Mas os versos anteriores a esse, antecipados somente por um solo de bateria, reverberaram na alma daqueles que sentiram na pele as dores e os temores do golpe aplicado entre a composição e o lançamento da faixa, no álbum Opinião de Nara (1964): “podem me prender / podem me bater / podem até deixar-me sem comer / mas eu não mudo de opinião”. Do canto ao grito, “Opinião” acabou censurada quatro anos depois, em 1968, mas foi regravada em 1970 pelo próprio Zé Keti, que canta com intimidade de autor:

Tão impactante quanto a original, para mim, é a versão que Juçara Marçal cantou durante a turnê de Encarnado (2014), um dos melhores discos da música brasileira de todas as eras, e dos mais importantes dos nossos tempos. Alheio à inclusão da música no repertório da turnê, descobri “Opinião” na voz de Juçara durante um show dela no Rio, acompanhada magistralmente por Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Thomas Harres e Thiago França.

Cantada tão próxima ao aniversário de 50 anos do golpe, durante pleno levante conservador do nosso Congresso, e por uma das cantoras mais relevantes desta geração, “Opinião” ganhou novo fôlego, significado e provou a (infeliz, dada as circunstâncias) atemporalidade. Como canção, deixou de ser só sobre o golpe e virou bandeira hasteada das minorias frequentemente ofendidas e desrespeitadas por quem as rejeita pela egoísta manutenção de privilégios ocos. Portanto, deixo a versão de Juçara aqui como desejo sincero de dias melhores, mais dignos com a diversidade e a pluralidade do nosso país. E que 1964 não volte nunca mais.

       
 

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