Troféus do Grammy
 

A cerimônia beirava as 3 horas de duração quando Pitbull entrou em cena para encerrar o Grammy 2016. Enquanto o descendente de cubanos cantava uma canção sobre conhecer uma moça em um táxi, a atriz Sofia Vergara, do seriado Modern Family, subiu ao palco para dançar com ele, e o Staples Center virou uma estranha vitrine do estereótipo do pop latino segundo os norte-americanos. Instantes depois, Robin Thicke, aquele acusado de plagiar Marvin Gaye em um single claramente machista, também subiu ao palco, acompanhado por Joe Perry, do Aerosmith, e Travis Barker, baterista do blink-182. Parece uma rebordosa de ácido, mas foi assim que terminou a 58ª edição do Grammy, realizada ontem (15) à noite em Los Angeles.

Eu adoro o Grammy, desde sempre. Assisto às premiações todos os anos. Mas a cada edição, a impressão de não saber o que de fato me atrai ali é mais forte. Cheguei a culpar a mim mesmo, considerar a falta de paciência para lidar com o teatro do pop quando se está distante dos vinte e poucos. Mas ontem ficou claro não ser esse o problema; é a Academia que parece ter perdido completamente o próprio norte.

Lady Gaga prestou uma devida mas inexpressiva homenagem a David Bowie, na verdade uma ação de merchandising da Intel. Justin Bieber entrou com jogo ganho, impulsionado pela reviravolta recente de imagem, e ainda assim fez um show burocrático, com Diplo e Skrillex fora das respectivas zonas de conforto. Rihanna, com bronquite, nem apareceu. E até Adele, que costuma surpreender positivamente em eventos assim, não conseguiu escapar do caos instalado: um dos microfones do piano que a acompanhava caiu e ficou apoiado nas cordas do instrumento durante “All I Ask”, e gerou um incômodo som que emulava uma guitarra desafinada sob a voz potente da inglesa.

Lemmy Kilmister, do Motörhead, também foi lembrado e homenageado, mas pelo Hollywood Vampires, grupo que reúne ex-integrantes do Guns n’ Roses a Alice Cooper e Johnny Depp. Anunciada por Dave Grohl, a banda aproveitou a oportunidade para tocar uma música inédita antes de mostrar uma versão abreviada de “Ace of Spades”. No fim das contas, da forma como ocorreu, a tal homenagem virou descaso com a maior voz rouca do rock.

Em resumo, nada parecia fazer sentido.

Houve bons momentos, como a atuação implacável de Kendrick Lamar, a versão honesta do Alabama Shakes para “Don’t Wanna Fight”, a homenagem dos Eagles remanescentes a Glenn Frey e o tributo a B.B. King promovido por Bonnie Raitt, Gary Clark Jr. e Chris Stapleton. No entanto, se a cerimônia do Grammy é a maior e mais importante noite do mercado fonográfico, o número de falhas e decepções não é apenas alarmante: é sintomático. O Grammy não conversa com ninguém, e parece ter dificuldade em compreender o próprio papel, a sua razão de existir. Não engaja o público jovem nos insistentes louvores a artistas veteranos, e soa forçado quando tenta dar espaço ao novo.

Não há uma maneira clara de magicamente tornar o Grammy relevante outra vez. Muitas soluções já são aplicadas, afinal o prêmio não é organizado por nenhum idiota. Mas da mesma forma que a indústria sofreu para sobreviver à ultrapassada era dos downloads, ela ainda parece presa aos moldes do século XX, e insiste em forçar as próprias escolhas aos espectadores, quando a lógica deveria ser a inversa.

Ora, quem disse que numa premiação de música o Grammy de Melhor Peça de Teatro Musical merece destaque, enquanto as categorias de eletrônica, metal ou R&B ficam esquecidas no pré-show? Quem disse que Beyoncé, dias após a explosiva performance no Super Bowl, deveria apenas entregar discretamente um troféu? Quem chamou o Pitbull?

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