Tomás Bertoni é guitarrista de uma das bandas mais interessantes do rock brasileiro nos últimos anos, a Scalene.

Com dois grandes discos lançados recentemente, Real/Surreal e Éter, os brasilienses mostraram que bebem de várias fontes para criar suas composições e a gente foi atrás de saber quais discos marcaram a vida de Tomás.

Nessa segunda edição da série que começou com Guilherme Guedes, pedimos para que o convidado citasse 10 discos que mudaram sua vida pelos motivos mais diversos. Não são necessariamente seus álbuns favoritos ou verdadeiras obras primas conceituais, mas registros que entraram na vida de cada um em algum momento importante e acabaram se tornando importantes.

Veja na sequência.

Metallica

S&M

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Lá por volta de 1998 meus primos mais velhos mandaram eu ouvir o álbum ao vivo Live Shit: Binge & Purge. Eu ainda não curtia muito música, ouvia qualquer coisa e não me importava muito. Ao ouvir esse disco, por uns três dias acho que nem parar pra comer eu parava, fiquei absolutamente extasiado. Quando descobri que “essa banda” tinha um DVD ao vivo com uma orquestra sinfônica fiquei maluco e pedi de presente de Natal.

Foi quando bateu de vez, além de realmente ver os integrantes na TV e não só ouvir, os arranjos com a sinfonia deram vários nós no meu cérebro. Devo ter visto o S&M mais de 200 vezes. Me incentivou a tocar guitarra também, os dedilhados de “One” foram uma das primeiras coisas que aprendi a tocar, enfim, Metallica é a banda mais marcante da minha vida, sem dúvida.

Preço Curto, Prazo Longo

Charlie Brown Jr.

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O Metallica me fez realmente gostar de ouvir música e aqui no Brasil o Charlie Brown era a banda que mais me empolgava. Esse foi o primeiro disco que pedi pra minha mãe me levar no shopping pra comprar. Eu tinha 9 anos, entrei na falecida “Discoteca 2001” e pedi por “Prazo Longo, Preço Curto” (o DDA já batia forte desde a infância).

“Confisco” era minha favorita e até hoje fico de cara que o álbum tem 25 músicas.

 

Prodigy

The Fat Of The Land

Prodigy - The Fat Of The Land

De 98 a 2003 tive uma fase bem roqueira ouvindo principalmente os clássicos.

Eis que começo a jogar basquete e conviver com uma galera diferente que ouvia muita música eletrônica e hip-hop. Um colega de time me deu esse disco e apesar de conhecer muito pouco do estilo gostei de primeira. Eu era viciado em Matrix e quando ouvi “Mindfields” reconheci da trilha sonora e fui convencido de vez.

Sucesso de público e crítica, é um álbum sensacional.

 

Alexisonfire

Crisis

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Passei alguns anos ouvindo mais música eletrônica e hip hop, mas meus amigos de infância e hoje colegas de banda, Lucão e Makako, já tinham bandas covers desde 2005 quando tínhamos 14/15 anos. Eles curtiam várias bandas “emo” na época e por não me identificar muito com aquilo acabava não me interessando pelo que ouviam.

Até que em 2007 eles me mostram Alexisonfire. Na minha opinião, esse é o primeiro grande álbum da banda. Eles aprendem a lidar melhor com a intensidade do post-hardcore sendo mais criativos e ainda mais intensos.

Se distanciam das raízes emo e são mais maduros nas letras e composições. Esse álbum junto de The Artist in the Ambulance do Thrice me resgataram da fase hip-hop/eletrônico (risos).

 

Thrice

Alchemy Index

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Falando em Thrice, lá vem textão.

É minha banda favorita e foi difícil colocar um álbum como o mais importante. Como to fazendo essa lista em ordem cronológica decidi pelo Alchemy Index, o trabalho que mais abriu minha cabeça pra coisas diferentes.

Ele consiste em 4 EPs, Water, Fire, Air e Earth, cada um com seis músicas. Cada EP tem diferentes estilos e sonoridades, sempre baseados nos diferentes aspectos e estéticas dos elementos, refletindo nas composições tanto instrumentalmente quanto liricamente. Eles gravaram tudo por conta própria e o guitarrista Teppei que fez a mixagem. É impressionante ver a evolução da banda, a criatividade das composições e arranjos, a qualidade dos timbres e como o conceito do álbum é bem construído.

É o trabalho mais experimental do grupo e quando ouvi a primeira vez não me bateu tão bem. Eu estava acostumado com as músicas post-hardcore, riffs de guitarra, bumbos duplos e o disco soava muito experimental pra mim na época.

Aos poucos fui acostumando, entendendo melhor, me abrindo pro que eles fizeram. A partir daí me interessei por outras coisas que se conectavam com aquilo que o Thrice estava fazendo. Até chegar em Radiohead.

Fire

 

Water

 

Earth

 

Air

 

Radiohead

In Rainbows

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Talvez a banda que mais se arriscou musicalmente e ao mesmo tempo conseguiu manter o sucesso mainstream seja o Radiohead. In Rainbows explora e inova sem causar tanto estranhamento no ouvinte como acontece em Kid A, por exemplo.

Muita gente gosta de falar em discos perfeitos, isso não existe e ainda bem que não existe, mas esse pra mim chega perto. Radiohead é uma das bandas que mais influenciou o mundo da música, então naturalmente ao me familiarizar com a discografia deles vários pontos foram conectados e várias epifanias musicais se seguiram. In Rainbows foi a porta de entrada.

 

Lenine

Falange Canibal

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Lenine é um dos meus compositores favoritos, talvez por ser o músico de MPB mais roqueiro do Brasil. Há uma maior tendência eletrônica do que nos álbuns anteriores, o que me agrada bastante. As letras são brilhantes como sempre.

Curto artistas corajosos que desafiam o ouvinte e o mercado. Lenine faz isso lindamente em Falange Canibal.

 

Jeff Buckley

Grace

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Conhecer Jeff Buckley certamente me fez entender o Thom Yorke bem melhor.

Com apenas um álbum é sinistramente respeitado e influente. É bizarro imaginar o que seria do mundo da música se ele não tivesse morrido afogado aos 30 anos.

Cantava absurdamente bem e sabia usar isso de forma inteligente, emocionante e criativa. A letra sincera de “Lover, You Should’ve Come Over” me acerta na alma toda vez. A versão de “Hallelujah” é mais popular do que a versão original e, se não conhecem, provavelmente já escutaram em algum lugar.

Meu sonho era o Buckley ter feito num segundo álbum mais músicas na pegada de “Eternal Life”. De qualquer forma, QUE CARA CABULOSO!!!

 

Them Crooked Vultures

Them Crooked Vultures

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Nos últimos dez/quinze anos, várias “superbandas” foram formadas e a maioria não vingou muito. Já o Them Crooked Vultures…

Além de Josh Homme, Dave Grohl e John Paul Jones, a banda era completada pelo não tão conhecido e igualmente talentoso Alain Johannes. Esse disco é uma grande referência para o Scalene, soa muito bem, é extremamente criativo, tem belas letras e ao vivo era ridículo.

Tá fácil entre os meus favoritos. Não tem muito mais o que expressar em palavras, de verdade. Pra quem não conhece, só curte esse vídeo aqui e a lenda John Paul Jones destruindo no final.

 

Woodkid

The Golden Age

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Nossa assessoria de imprensa também produz eventos e no início de 2014 fizeram o show do Woodkid em SP.

Já tinha visto o clipe de “Iron” que foi lançado como single (e que a Shakira plagiou), mas acabei não sabendo que tinha saído o disco um tempo depois. Fui no show e, apesar de sacar que ainda era um artista se encontrando como vocalista e frontman, foi um dos melhores shows que já fui na vida.

Yoann Lemoine começou como diretor e designer. Usando esse know-how conseguiu criar um universo próprio, esteticamente e musicalmente falando. Sinceramente nunca fui atrás pra saber se é isso mesmo, mas o disco parece ser auto-biográfico ou ao menos contar a história de um garoto.

Começa com “Golden Age” e o fim da infância e inocência, depois “Run Boy Run” e “The Great Escape” dai ele “escapa” num barco em “Boat Song”, passa pelas experiências descritas em “I Love You” e chega em “The Shore”. Só vou até ai pra não dar spoilers.

Vale a pena ver todos os clipes e ver o artista completo que é.

 

 

Menção honrosa:

Nine Inch Nails – The Fragile

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Como essa lista era mais na linha de álbuns que marcaram minha vida e não necessariamente os meus álbuns favoritos, The Fragile não ficou entre os 10.

Se você mostrar esse álbum de 1999 pra quem não conhece e dizer que é recém-lançado a pessoa acredita. Trent Reznor, na minha opinião, é um dos maiores gênios de timbres, texturas e sonoridades da história. Não é a toa que tá fazendo trilha sonora esses últimos anos e já ganhou Oscar.

 

Massive Attack – Mezzanine

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Outro exemplo de álbum dos anos 90 que ainda soa moderno nos dias de hoje. Uma das únicas críticas feitas a esse trabalho é que às vezes explora demais ritmos e texturas e esquece de priorizar melodia, o que não me incomoda nem um pouco.

É marcante pra mim justamente por isso, serve bastante como estudo e referência.

 

10 discos que mudaram a vida

Veja a primeira edição da nossa série com Guilherme Guedes (TMDQA!, Multishow, BIS) clicando aqui.

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