Tiregrito e o verdadeiro engajamento na era das redes sociais

Tiregrito

Engajamento. Essa palavra tem sido utilizada à exaustão nos últimos anos, principalmente quando o assunto são as famigeradas mídias sociais.

Profissionais são contratados por empresas para que aumentem o engajamento dos clientes no Twitter, Instagram e qualquer que seja a nova ferramenta preferida do público.

Em tempos onde o Facebook, principal plataforma do gênero, utiliza seus algoritmos para entregar conteúdo aos seus usuários de forma muitas vezes imprevisível, analistas de social media quebram a cabeça para chamarem a atenção e conquistarem não apenas a “curtida”, mas também o tão procurado compartilhamento.

Na música não é diferente, e o que vemos é uma série de bandas, gravadoras, produtoras e estúdios apostando suas fichas, às vezes quase que literalmente, em campanhas nessas plataformas.

Muitas vezes, porém, a base é fraca, a ordem das coisas é invertida e os artistas preferem gastar uma grana impulsionando suas publicações ao invés de gastar seu tempo compondo um conjunto de boas canções e as registrando em estúdio.

São bandas e mais bandas que não enxergam muita coisa além de números de curtidas, seguidores e visualizações, mesmo que elas sejam artificiais e no final das contas acabem não valendo para muita coisa.

É importante ressaltar que essas ferramentas são, sim, importantíssimas, mas quando agregadas a um trabalho sólido e consistente, utilizadas como uma ferramenta de apoio fundamental. O problema é colocar nas costas das redes sociais todo o sucesso / fracasso de uma banda ou artista.

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Pois vamos embarcar em uma viagem para o interior do Paraná.

Em uma cidade chamada Francisco Beltrão, com seus 85 mil habitantes, há uma banda chamada Tiregrito que depois de muitos anos de shows locais, resolveu gravar um EP chamado Sul do Mundo.

A ideia era registrar sua mistura única de rock, folk e cultura do Sudoeste do Paraná em um trabalho de qualidade, e para isso o grupo optou por ir até um estúdio de primeira linha em Florianópolis, para gravar com um produtor que já tem anos de estrada e habilidade o suficiente para guiar um grupo em sua primeira viagem.

O registro foi feito, um designer foi contratado para deixar a capa do trabalho atraente e com a cara da banda e o pacote estava completo. Promovemos, inclusive, a estreia do EP aqui no TMDQA! há algum tempo.

Entre os naturais próximos passos na forma de shows e turnês para fora do seu círculo, apareceu um concurso nacional para tocar no Rock In Rio.

O regulamento dizia que as 5 primeiras bandas em votação popular se juntariam a mais 5 bandas escolhidas pela organização para uma audição em São Paulo e a selecionada irá realizar, então, o sonho de pisar em um dos palcos do chamado maior festival do mundo.

Aproveitando a oportunidade, a banda inscreveu sua música e começou a divulgar a página do concurso para que amigos, parentes e fãs começassem a votar, e o resultado em pouco tempo foi bastante interessante, os colocando no topo da competição mais rápido do que os próprios previam.

Com o tempo, a banda viu a possibilidade real de extrapolar as fronteiras da sua cidade e pelo menos ir até a audição entre os 10 finalistas, e começou a promover o engajamento (!) de quem poderia levá-los até lá: as pessoas.

Começaram então as mais diversas ações criativas da banda, que resolveu visitar escolas da cidade em uma agenda semanal que teve tanto colégios públicos quanto particulares e não apenas apresentou o som do Tiregrito ao público jovem, como já trouxe algumas centenas de votos.

Vídeos produzidos com traços marcantes da cultura local foram utilizados para reforçar o pedido por votos, e cada vez mais as pessoas se sentiam ligadas a um grupo que queria tanto conquistar um objetivo cada vez mais claro.

Tiregrito agora nos estúdios da rádio Onda Sul FM. Se vc tá no Sudoeste, sintoniza 98.7 e se tiver na frente do PC acessa radioondasul.com.br

Posted by Tiregrito on Quarta, 22 de julho de 2015

 

Na última semana da votação, a banda que vinha em primeiro lugar há algum tempo foi ultrapassada por outros concorrentes, alguns que inclusive nem apareciam entre os 20 primeiros e de repente estavam no topo da disputa, e o que antes era garantido com folga, passou a ficar até mesmo distante, já que fora dos 5 primeiros, não havia audição, nem Rock In Rio, nem festa.

O que se viu da banda foi uma intensificação nas ações de divulgação, da forma mais humana possível: o artista foi às ruas distribuir panfletos, ao jogo local de futebol de salão tirar foto com o mascote do time, participou de programas de rádio, promoveu show em praça com direito a banner para votação e utilizou, sim, as redes sociais, mas fez o caminho inverso do robotizado mecanismo de hoje em dia: ao invés de atacar os pequenos avatares da tela do Facebook, foi até as pessoas que estão por trás deles.

Logo as mais inesperadas fontes se relacionaram à campanha e começaram a publicar sobre a causa: a faculdade onde se formaram integrantes da banda, a Prefeitura do Município, a Associação Comercial e até bares de cidades onde a banda (ainda) não tocou mas já teve as portas abertas depois do projeto, publicaram pedidos de votos em seus perfis oficiais no Facebook.

Com esse movimento todo, a banda engajou (!!) milhares de pessoas através da mais antiga rede social desse planeta: o boca a boca, a indicação, o sentimento de representatividade e semelhança.

Pedindo voto pro torcedor do Marreco! Vai marrrrecooooo vote aqui—> http://rockinrio.vw.com.br/minhabanda/tiregrito

Posted by Tiregrito on Quarta, 22 de julho de 2015

 

O engajamento (!!!), esse grande troféu tão cobiçado por gente no mundo todo, veio da maneira mais orgânica possível, e de repente todo mundo estava usando as redes sociais por vontade própria para curtir, comentar e compartilhar.

Esse tipo de trabalho, que lembra muito os primórdios de movimentos independentes que distribuíam seus flyers na rua, colavam os cartazes de shows à noite e faziam acontecer, fez com que a cidade e a região toda ficassem com o nome da banda na cabeça, e até pais, mães e avós já estavam sabendo que “o Tiregrito vai pro Rock In Rio”. O tal do buzz, também tão buscado, se fez então presente como uma consequência natural.

Talvez a banda nem imaginasse, mas o resultado oficial, aquele dos números, frio e direto, era o que menos importava. Poucas vezes se viu alguém mobilizar tanta gente em tão pouco tempo, em uma causa ligada única e exclusivamente à música e ao amor por ela.

Pedindo voto no semáforo. Se for pra morrer, morremos atirando. E aí? Já votou na gente? http://rockinrio.vw.com.br/minhabanda/tiregrito

Posted by Tiregrito on Quarta, 22 de julho de 2015

 

Ao final das contas, a banda ficou em quarto lugar e vai para a audição em São Paulo para, de repente, se apresentar em um show do Rock In Rio que deve ser visto por algumas poucas pessoas que chegarão cedo à Cidade do Rock.

Sinceramente, não importa. O título, alcance, engajamento e mobilização estão aí pra sempre, em uma verdadeira lição de como utilizar as mídias sociais, dentro e fora da telinha, como trabalhar a sua banda em cima de uma base sólida voltada, antes de tudo, à música, e como não esperar que as coisas caiam no seu colo, armadilha tão mortal presente com frequência em assuntos ligados à arte.

Os frutos de uma ação como essa serão colhidos até o dia em que a banda resolva pendurar o chapéu, a guitarra e o banjo. E que essa data não venha tão cedo.

Galerinha nervosa no show que fizemos no Colégio Suplicy, em Francisco Beltrão. \o/ Quem estava nesse show, dá um grito…

Posted by Tiregrito on Terça, 7 de julho de 2015

Bom dia, Sudoeste VÉIO AMADO DE GUERRA. A gente tem tanta coisa pra falar, tanta gente pra agradecer. Mas esse vídeo,…

Posted by Tiregrito on Quinta, 23 de julho de 2015