Resenha: Lieutenant - If I Kill This Thing We’re All Going to Eat for a Week
 

Nate Mendel é um cara bacana com algo pra dizer. O músico, que lançou em Março seu primeiro disco solo (sob a alcunha de Lieutenant), não só é conhecido por ser o baixista do Foo Fighters, como também é lembrado por ter feito parte do Sunny Day Real Estate, grupo que ajudou a estabelecer o real emo como gênero nos anos 90. Inclusive, suas credenciais no Sunny Day Real Estate provavelmente foram o que permitiram Mendel figurar entre os primeiros recrutados de Dave Grohl para a formação original do Foo Fighters. Desde então, o baixista nunca deixou a equipe, sendo (ao lado de Grohl) o único membro presente em todos os momentos da banda.

Todavia, Nate Mendel talvez seja apenas o terceiro ou quarto integrante mais conhecido do Foo Fighters entre aqueles que não conhecem o grupo a dedo. Enquanto os outros membros se destacam por presença no palco ou por palhaçadas e declarações polêmicas fora dele, Mendel aparenta ser mais recolhido e reservado, embora essas aparências devam enganar completamente. De qualquer forma, a expectativa geral era de que a empreitada nomeada Lieutenant fosse focar em músicas introspectivas com o álbum If I Kill This Thing We’re All Going to Eat for a Week. Além disso, se o músico não tinha muitas oportunidades de compor, cantar ou tocar outros instrumentos em seus outros projetos, no Lieutenant ele assumiria basicamente todas as cordas e assinaria as letras de todas as faixas. Seria o momento ideal para se testar como compositor e vocalista.

É bom saber desde o início que If I Kill This Thing… não lembra em nada as principais bandas por onde Nate Mendel deixou sua marca. Muitos imaginaram que o Sunny Day Real Estate seria a grande influência no som do Lieutenant, mas isso não acontece. A atitude de escolher trilhar um caminho ainda não antes desbravado concede a Mendel um bom ponto positivo. E o nome engraçadinho do trabalho não é significado de bom humor no conteúdo do mesmo. A piada se manteve na capa.

Logo de início, na abertura do registro, Mendel apresenta a parte mais saborosa da tal “coisa” que ele pretendia matar. “Belle Epoque” pode desagradar de primeira, mas acaba se tornando totalmente relevante ao ser escutada novamente. Já “The Place You Wanna Go” é encantadora e prazerosa, principalmente pela ponte antes do refrão. Os adjetivos usados para descrever as músicas podem parecer bobos e fofinhos, mas a causa é justificável. If I Kill This Thing… é seguro e suave o tempo todo, como muita coisa que é rotulada pelo selo de indie rock genérico. “Believe The Squalor” segue na mesma linha, mas não deixa de ser muito boa.

Em “Rattled” o músico tenta imprimir um refrão acelerado, mas seus vocais serenos o impedem de alcançar um resultado energético. Com “Prepared Remarks” essa energia é conseguida através da guitarra tocada com propriedade pelo próprio Mendel. Depois de passada metade do disco, as faixas se enfraquecem e deixam de surpreender, como visto em “Some Remove” e “Sink Sand”. “Artificial Limbs” apresenta um bom clímax, mas é como se tivesse sido tocada anteriormente. O mesmo ocorre na lenta faixa de encerramento (“Lift The Sheet”), que fecharia muito bem o álbum caso diferisse consideravelmente das canções anteriores.

Liricamente, Mendel peca por não criar um elo com o ouvinte, incapacitando assim a compreensão total de sua mensagem. Escrevendo letras pessoais ou não, a maior habilidade dos gênios introspectivos é fazer com que o público se identifique com sua música mesmo que ela venha recheada de referências pessoais que ninguém além do compositor irá entender. Parece que Nate não consegue transparecer esse talento com o registro, mesmo tendo estudado o método de David Byrne retratado no livro How Music Works. O músico chegou a confessar que um dos motivos para não usar seu próprio nome numa empreitada solo seria esse desconforto ao compor, causado pela falta de experiência dele na arte da escrita de letras (Mendel contou numa entrevista que não escrevia letras para canções desde adolescente, quando montou sua primeira banda de punk rock).

Outro aspecto negativo de If I Kill This Thing… são as participações especiais que passam despercebidas. Fora o baterista Joe Plummer (Modest Mouse), que comanda as baterias em todo o disco, as contribuições dos companheiros Jeremy Enigk (Sunny Day Real Estate), Page Hamilton (Helmet) e Chris Shiflett (Foo Fighters) dificilmente são notadas. Por um lado, isso prova que Mendel realmente encabeçou o projeto e fez os músicos trabalharem ao seu modo.

Apesar de todas as suas faixas possuírem um atrativo e funcionarem separadamente, If I Kill This Thing We’re All Going to Eat for a Week fica enjoativo ao ser escutado na íntegra e tem pouco apelo para quem não é fã de Nate Mendel, do Foo Fighters ou de outro trabalho do artista. Já é mais do que a maioria consegue. Quem sabe na próxima, o músico (sob o nome de Lieutenant ou não) resolva caçar algo mais substancioso, algo que deixe uma sensação de saciedade duradoura. Capacidade para isso e projetos bacanas no currículo ele tem de sobra.