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No início de Dezembro estivemos no Goiânia Noise Festival 2014 e entre um show e outro, batemos um papo com Jimmy London, vocalista do Matanza. Detalhes sobre o novo disco, o mercado do vinil, vida na estrada, streaming e Biohazard foram alguns dos temas abordados na entrevista.

Confira:

TMDQA!: No site oficial da banda vocês disseram que estão produzindo um novo disco. O que podemos esperar de novidade neste trabalho?

Jimmy: Podemos te falar já um monte de coisa. O disco está pronto na nossa cabeça, já ensaiamos o disco todo e começamos a gravar dia 14 de Janeiro. É um disco que vai sair provavelmente em Abril e é um disco basicamente de contos de terror.

[one_third]”Tá na hora de contar um monte de história do mal, um monte de história sinistra, abordando os piores cenários possíveis”[/one_third]

TMDQA!: Contos de terror? As temáticas do Matanza giram mais em torno de bebidas, mulheres, festa, confusão… terror eu nunca tinha reparado.

Jimmy: Até que tem uma pitada ou outra disso em um pedaço de uma música aqui, em um disco ou em outro… mas a gente costuma dizer que temos três vibes distintas: a vibe “tiro pro alto” – que é quando a gente está falando de festa, putaria, tudo bagunçado – , temos a vibe “saco cheio” – que são as músicas tipo: ‘Quero mais que tudo se foda, vai todo mundo tomar no cú’, que inclusive é uma parte grande das letras do Matanza – e tem uma parte do Matanza que eu já acho até um pouco mais lúdica de certa maneira, que é a parte das histórias, dos contos. Então, nesse disco agora resolvemos que vai ser isso aí, pensamos: ‘Tá na hora de contar um monte de história do mal, um monte de história sinistra, abordando os piores cenários possíveis’.

TMDQA!: O que vocês destacam dos quase 20 anos de carreira da banda?

Jimmy: Ah, eu destaco o fato de ainda estarmos vivos! De ainda dar tempo de fazermos mais discos. São 20 anos fazendo merda e a gente ainda tá aqui inteiro e eu vou te falar… não é fácil não. Cansa pra caralho!

TMDQA!: Inovar depois de tanto tempo se torna uma coisa difícil?

Jimmy: Eu não sei exatamente se a gente inova. Mas tem uma coisa que a gente se preocupa muito que é o seguinte: acho que ia ser muito mais fácil pegar um disco agora e fazer o Reggae do Matanza, qualquer merda que fosse, completamente fora do que a gente sempre fez. Pra gente é muito mais difícil tentar desdobrar o nosso tema e ainda ser relevante, não fazer uma merda qualquer de um outro assunto totalmente nada a ver. Tipo: ‘Agora o Matanza fala de teto, parede e chão’, não fala mais do que a gente acredita. Dá um grande trabalho continuar desdobrando nossos assuntos, e isso na minha opinião é um trampo maneiro.

TMDQA!: E o Donida? Faz um bom tempo que ele não toca ao vivo com vocês, não aparece nos palcos.

Jimmy: É, demais, e ele vai tocar agora no Matanza Fest!

TMDQA!: Então! O que o trouxe de volta aos palcos agora?

Jimmy: Nunca teve nenhum problema. Para ele é tranquilo vir com a gente e fazer cinco shows no fim do ano, ele se diverte, ele se amarra. O que eu acho que acontece é que ele não tem mais a vibe de fazer uma coisa que é praticamente uma predisposição natural: aturar a estrada. Hoje eu acordei às 5 da manhã, cheguei no aeroporto 6:45, estava tudo fechado, chegamos em Goiânia as 17h e então eu fiquei 12 horas viajando para vir aqui, fazer um show e ainda voltar pro Rio para tocar amanhã. E isso para mim é absolutamente normal, estava até conversando com esses babacas da banda aqui hoje e a gente estava pensando : ‘Se a gente contasse para as pessoas todas as merdas que acontecem em um fim de semana com a gente, coisas que a gente acha absolutamente normal, ninguém ia acreditar’. Iam dizer: ‘Não é possível, vocês não demoraram 24h para ir de um lugar ao outro, chegaram no lugar e montaram o equipamento em 15 minutos, fizeram um show de quase 2h e depois voltaram pro aeroporto…’. É isso aí, todo fim de semana, então tem que ter uma predisposição ali para ralar e enfrentar a estrada. Tem pessoas que simplesmente não se encaixam com isso. Quem lida bem com isso já fica estressado, quem não lida bem com isso… não consegue.

[one_fourth]”Eu cresci gravando e trocando fitas cassete com meus brothers, a gente já tinha o Napster desde os anos 70.”[/one_fourth]

Não é uma rotina fácil e quem não consegue lidar com isso fica histérico. E o esquema é chegar no palco e fazer o melhor de tudo que você pode fazer na vida, o show é onde eu tenho que dar tudo de melhor que tenho. Depois de um show cansativo eu não durmo três dias seguidos, eu descanso 3 horas e já parto pra outro. No outro dia já tem de novo. Mas o Donida tá amarradão, vai ser ótimo tocar com ele no Matanza Fest, ficou muito legal. Vamos tocar nosso primeiro disco inteiro nos shows, vai ser do caralho! É um disco que eu me amarro demais, os ensaios essa semana foram ótimos, tocando todo mundo junto, coisa que a gente vai fazer no próximo disco também inclusive. Nesse próximo disco o Maurício Nogueira que é quem toca ao vivo com a gente vai gravar também. É uma novidade isto ainda, começamos a tocar com os dois juntos apenas quando começamos a compor esse disco que foi mais ou menos no meio deste ano. Duas guitarras dá muita onda, fica muito bom.

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TMDQA! : Goiânia está no itinerário do Matanza praticamente todo ano, o que traz vocês tanto para cá?

Jimmy: Na verdade não é praticamente. A gente faz show em Goiânia é mais de uma vez por ano mesmo! Fazemos isso em muitas capitais brasileiras, são muitos shows todo ano. Mas isso não quer dizer que não tenhamos uma puta história longa com Goiânia. Nos apresentamos em Goiânia desde antes de lançar o primeiro disco e, porra, esse primeiro disco está fazendo 13 anos, e acho que a gente vem a Goiânia já fazem uns 16, 17 anos. Goiânia é uma cidade diferente, a Monstro Discos realmente começou um processo há uns 20 anos, pegando uma molecada ali com uma idade crítica, onde seria um divisor de águas. Seria uma galera que ouviria qualquer tipo de música, dessas que você não presta muita atenção (ouve só porque está tocando) e trouxe uma porrada de bandas fazendo um trabalho de catequese mesmo (tirando a parte ruim da religião) mostrando pra galera que tem outro tipo de música por aqui, que tem banda boa, que tem a galera daqui que faz um som muito legal… e, realmente, Goiânia virou uma cidade muito diferente. Hoje em dia o jovem de Goiânia parece de certa forma os jovens de São Paulo, um cara que ouve rock porque onde ele está é normal ouvir, tem a galera que ouve o sertanejo e não sei o que, mas existe esse rock muito forte. Os festivais iniciados pela Monstro foram trazendo outros festivais, outra galera bacana que fazia festival por aqui antigamente… acho que o crédito disso tudo é todo deles mesmo.

TMDQA!: E de onde saiu essa ideia de trazer o Biohazard para acompanhar vocês nestes shows do fim de ano, no Matanza Fest, onde vocês geralmente já convocam bandas regionais em cada lugar para abrir os shows?

Jimmy: Achamos que tínhamos que dar um passo maior, tínhamos que dar um carimbo mais sério no Matanza Fest. Precisávamos fazer uma parada foda agora. É ótimo chamar as bandas locais, também gostamos de chamar bandas das antigas que gostamos, gostamos de misturar bandas das antigas, com bandas novas que achamos massa e precisamos também de uma banda que fortaleça junto com a gente o espetáculo. Dessa vez pensamos que essa banda tinha que ser uma banda foda. Já tínhamos um certo contato com o pessoal do Bio e rolou essa parceria. Para o Matanza Fest é uma coisa muito importante isso, é como dizer: ‘Olha só, agora estamos virando adultos’.

TMDQA!: O que você acha dessa fase da música agora, onde o mercado da música nacional e internacional está trabalhando muito mais com divulgação de seus trabalhos na Internet do que com lançamentos físicos?

Jimmy: Então, eu tenho uma opinião muito bem formada sobre esse assunto que já pode parecer até um pouco velho na verdade. Aquilo que antes era aquilo de pirataria digital. Eu cresci gravando e trocando fitas cassete com meus brothers, a gente já tinha o Napster desde os anos 70. A questão toda é até simples: hoje em dia, se você for ver pelos dados, os sites de torrent estão aí praticamente para baixar seriado, praticamente ninguém baixa mais nada porque pode ouvir perfeitamente no Youtube. Só quem viaja muito ou alguma coisa assim que precisa disso, de ter as músicas gravadas em algum lugar. No Youtube você ouve o que quer, na versão que quer, na hora que quer, então isso de baixar as coisas já passou, já ficou até velho.

O Youtube é o site que tem mais tempo de permanência por usuário, por mais que as pessoas entrem mais no Google, elas passam muito mais tempo no Youtube (por isso o Google comprou o Youtube). Então, o que eu vejo que é crime, crime mesmo, em toda essa “pirataria” é aquele cara que copia o seu disco de alguma maneira e vende aquela merda. O cara que tá lá no camelódromo e tem algum tipo de lucro com isso. Isso é um ladrão, é um cara que tá lá tendo lucro com o trabalho de outras pessoas. É uma sacanagem. O resto todo é bom. O streaming hoje em dia só ajuda, temos números de streaming do Google excelentes, gigantescos. Por menos que a gente receba lucro com isso, seilá , 4 centavos, 10 centavos cada vez que alguém ouve nossa música, os números são tão grandes que acabam até virando dinheiro mesmo. Já está tudo muito bem resolvido, muito bem encaminhado. Eu já baixei muita música nessa vida, até por questão de pesquisa. É muito complicado ter acesso ao tanto de grana que seria necessário para adquirir tudo isso que está disponível por aí. Então a Internet serve maravilhosamente muito bem para isso.

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TMDQA!: Voltando no tempo um pouco então, muitas bandas agora estão lançando seus trabalhos em vinil. Porque você acha que este mercado está voltando a crescer neste últimos tempos?

Jimmy: Na verdade isso sempre rolou, inclusive nós mesmos estamos relançando nossos trabalhos em vinil também… Nunca deixou de existir um mercado diferenciado, para um cara que está disposto a gastar um pouco mais. Não digo que é nem pela qualidade, porque isso é totalmente perceptível. Acho que tem um pouco de marketing ai também. A geração mais nova cresceu ouvindo CD já, ou MP3. Se essa galera ouvir um vinil, que tem um grave mais redondo e mais proeminente é capaz de achar até estranho. O fato de você ter que levantar no meio para trocar o disco de lado, para mim, quando eu fazia isso, era parte da minha experiência lúdica de ouvir um disco. Tinha disco que eu ouvia só um lado, ou ouvia primeiro o lado B e depois o lado A… Para mim o vinil remete a um momento marcante da minha vida, é algo muito nostálgico.

Para mim faz sentido ouvir as músicas em vinil, é o que eu ouvia quando eu era moleque. Aquele timbre, aquela sonoridade dizem muita coisa. Este é um mercado, o das pessoas mais velhas que estão acostumadas e cresceram ouvindo isso, é uma memória afetiva deste timbre do vinil que nos agrada. Tem um outro público que gosta de pagar mais caro pelas coisas, que quer tomar um café mas não vai na cafeteria normal, quer ir na cafeteria gourmet, porque acha irado e por isso ele não quer ter um MP3 ou um CD, ele quer ter um vinil com a capa grande e tal porque acha lindo. Mas tem também aqueles jovens, que se apaixonam pelo vinil, porque nasceram na década errada. Mas resumindo é isso, nunca deixou de ter esse mercado, o fato é que agora tem mais empresas preocupadas com o ramo e fomentando mais o mercado. Sempre teve gente querendo ouvir o vinil, querendo pagar um pouco a mais pelo vinil e gente que se apaixonaria pelo vinil mesmo se fosse em outra época.