Brody Dalle libera novo álbum na íntegra para audição
 

Resenha: Brody Dalle - "Diploid Love"

Em poucas semanas, a bela australiana Brody Dalle (que escreveu seu nome como ícone do punk ao liderar a banda The Distillers) lançará oficialmente seu primeiro e aguardadíssimo álbum solo, Diploid Love, que verá a luz do dia em 28 de Abril, via Caroline Records/Queen of Hearts, e marcará seu primeiro lançamento desde o disco homônimo e de estreia de seu projeto anterior, Spinnerette, de 2009. Entretanto, o Tenho Mais Discos Que Amigos! já teve acesso ao material.

Firmando mais uma parceria da moça com o experiente músico, produtor, compositor e engenheiro de som chileno Alain Johannes (conhecido por trabalhos com nomes como Queens of the Stone Age, Chris Cornell e Them Crooked Vultures), o álbum trará 9 faixas inéditas e participações de Shirley Manson (Garbage), Nick Valensi (The Strokes), Michael Shuman (Queens of the Stone Age, Mini Mansions), Emily Kokal (Warpaint), Darren Weiss (ex-Girls), Jessy Greene (famosa violinista que já tocou com SuperHeavy e Foo Fighters), Tyler Parkford (Mini Mansions), Hayden Scott (baterista que já tocou com Paramore, AWOLNATION e que acompanha Dalle na atual turnê) e outros, conforme o Tenho Mais Discos Que Amigos! há tempos menciona.

Em Diploid Love, Dalle mostra estar mais à vontade e em maior sintonia com suas próprias músicas, sem medo de arriscar (na época do The Distillers, ela bloqueava a ideia de adicionar qualquer elemento que fosse contra a essência punk das canções), e toca 90% dos instrumentos escutados no álbum.
A liberdade de criação e a autoconfiança reconquistada após 4 anos de depressão e de crise existencial (período pelo qual passou ao dar a luz à Camille Harley, em 2006, e ao enfrentar críticas relacionadas ao seu peso pós-gravidez durante toda a era da Spinnerrette) levaram Dalle a incluir não só novas texturas e instrumentos inéditos em suas músicas (metais, violinos, korgs, mellotron e marxophone) – porém sem tornar a sonoridade complexa e perder a firmeza das canções (já que com a Spinnerette ela não conseguia executar ao vivo algumas faixas) -, como também a não ter medo de se assumir como artista solo e a assinar, pela primeira vez, seu nome como co-produtora de um álbum.

A sensação que fica é que, em sua estreia solo oficial, Dalle faz o que não conseguiu alcançar diretamente com a Spinnerette e mistura seus projetos passados com influências tanto de bandas mais ríspidas, como Misfits, Black Flag e Pailhead, quanto do pop e eletrônico do Metronomy, DEVO e Yeah Yeah Yeahs, oferecendo um disco com baixos altamente sujos e cheios de fuzz, vocais guturais mesclados com linhas de vozes mais serenas, baterias bem desenvolvidas, guitarras encorpadas e letras tão honestas quanto diretas. Com isso, a australiana prova o porquê de não usar a coroa de títulos oferecidos como “ex-diva punk” e “indie moderna”, carregando sempre consigo a essência de “riot girl”. Brody Dalle não tem tempo para rodeios e frescuras: é durona, destemida e ponto final. Não mexa com ela. Não tente provar o contrário.

Isso se torna claro já na faixa que abre o disco, “Rat Race“. Com participação de Nick Valensi na guitarra e Alain Johannes nos trompetes, a canção mistura bem os lados contraditórios de influências de Dalle e, ao mesmo tempo em que soa um tanto quanto pop, traz a ameça em trechos como o refrão, onde Dalle canta “eu vou queimar esta cidade” e “eu vou trazer esta cidade abaixo”, já “chutando a porta” e expondo sua bravura.

Em “Underworld“, Dalle parece fazer uma homenagem ao Queens of the Stone Age e tocar sua música favorita da banda, o b-side “The Bronze”, de maneira mais feroz, em tempo muito mais avançado, com poucas, porém notáveis, alterações. Na faixa, a mais explosiva e mais punk do registro, Dalle canta sobre seu carinho ao México e transporta o ouvinte para lá, pelo fato de ter incluído sopros nos refrões (tocados por Cindy de Shea, da banda The Mariachi Divas) e um final inesperado e surpreendente, executado pelo Mariachi El Bronx, apesar de Dalle ter pensando em fazer, originalmente, com elementos da música russa: “Eu pensei: ‘como uma música russa soa? Como eu a incorporo em minha canção?’ Eu pensei: ‘vamos tentar mariachi’. E deu certo, deu bem certo.”

Em “Don’t Mess With Me“, que será sua próxima música de trabalho, Dalle transmite com bastante clareza o recado de seu título e avisa para não arrumarem encrenca com ela, pois ela reagirá e não levará desaforo para casa. Selvagem, poderosa, agressiva e impactante, punk e pop, “Don’t Mess With Me” surgiu para dar coragem aos que sofrem com bullies, segundo a própria compositora: “Ela foi escrita para os meus filhos e crianças de qualquer lugar que são intimidadas por serem diferentes. Eu escrevi sobre crianças que são ameaçadas na escola ou apenas pessoas que sofrem com isso. É como se fosse minha fantasia de, telepaticamente, fazer alguém parar de machucar você. É uma mensagem de lutar pelas crianças que são maltratadas. Eu não gosto de valentões e eu não gosto de autoridade. Eu tenho um problema com isso.”

Na faixa seguinte, “Dressed in Dreams“, Dalle mantém os temas principais do disco, sobrevivência e esperança, e apresenta uma das faixas mais cativantes e bonitas que já compôs durante toda sua carreira – que já dura 21 anos. Na letra, que parece ter sido criada para servir tanto como estímulo para seu marido, Josh Homme (que chegou a pensar em desistir da música após o trauma de passar por uma cirurgia que quase custou sua vida, em 2009), quanto para levantar questionamentos e buscar respostas sobre o mundo em que estamos, Dalle canta com muito sentimento trechos como Dias melhores estão esperando por mim e eu irei vestida de sonhos / Eu não vou deixar você se abater quando você tentar recomeçar / Vista seus sonhos e vamos embora / Eu não vou desistir, eu quero a liberdade de poder sonhar o impossível, eu vou torná-lo real.

A introdução serena de “Carry On“, realizada no piano, logo é acompanhada por bateria eletrônica e por uma pulsante linha de baixo desenhada por Michael Shuman (Queens of the Stone Age, Mini Mansions), que ampliou a atmosfera de disco music da faixa, a mais pop e dançante do disco, ao trazer à mesma o que aprendeu ao ser influenciado por Blondie (Shuman chegou a fazer versão de “Heart of Glass”, um dos clássicos da banda). Na letra escrita aos seus filhos, Camille Harley (8 anos) e Orrin Ryder (2 anos), Dalle canta sobre enfrentar situações desafiadoras e manter o foco, ter uma direção a seguir.

Na arrebatadora “Meet The Foetus / Oh The Joy“, sua primeira música de trabalho revelada, Dalle continua a fazer homenagem a seus filhos e descreve a música, sua favorita do disco, como “uma carta de amor a eles”, cantando sobre a alegria de ser mãe e como isso a afetou positivamente. A junção de batidas progressivas, vocais e efeitos lo-fi, guitarras altas e baixo que soa faminto ao percorrer por cada parte da faixa, cria a atmosfera sombria e densa de “Meet The Foetus”, que cresce e explode de maneira imprevisível ao chegar em sua segunda parte, “Oh The Joy”, um ambient punk com vocais de Shirley Manson e Emily Kokal.

Dalle nunca escondeu que veio de um lar disfuncional e o quanto sua infância na Austrália foi árdua. Apesar de ter feito as pazes com sua mãe, ela nunca teve bom relacionamento com seu pai biológico, mesmo que vários anos depois ele tenha sido o responsável por Dalle criar laços com uma irmã que não sabia de sua existência e vice-versa – Morgana Robinson, atriz e comediante da TV londrina. E se em “Meet The Foetus / Oh The Joy” ela canta sobre a felicidade de fazer parte de uma família que se ama, em “I Don’t Need Your Love” ela mostra seu dedo do meio ao seu pai biológico: “É um f***-se, eu não preciso de você, olhe o que tenho”. Em uma música carregada de sentimento e com trechos como eu viajei ao redor do mundo e pelos lugares solitários onde você esteve / eu não senti nem um pouco a sua falta / eu não preciso do seu amor / como você vai e onde você esteve? / eu não poderia me importar menos, você sabe o que eu quero dizer?, Dalle canta suavemente e em falsete, como se por trás disso quisesse, na verdade, gritar todas as palavras escritas. Com base no piano, Darren Weiss na bateria e Jessy Greene no violino, a canção ainda conta com um tocante interlúdio gravado por Dalle e seus filhos, que riem e brincam provando que tudo está em paz.

Ela mantém o clima de superação em “Blood In Gutters” – que conta também com Nick Valensi na guitarra. Dalle surpreende em sua performance vocal e grita, com todo o ar de seus pulmões, para o ouvinte achar sua fraqueza e, assim, exterminá-la de vez, enquanto o baixo pulsa e ajuda Dalle a expelir toda a energia necessária para tornar “Blood in Gutters” a mais massiva do registro.

Já em “Parties For Prostitutes“, criada em um órgão Fun Machine, baseada em batidas eletrônicas e baixo que marca seu compasso, Dalle canta calmamente sobre traição, até não se conter e gritar, com seu timbre áspero, você apagou a vela do bolo de alguém / Feliz aniversário / Erro vergonhoso, trecho sucedido por um instrumental forte e cheio de distorções, que finaliza a canção e o disco.

Diploid Love foi criado por Dalle em seu melhor momento como artista e ser humano. É selvagem, visceral, poderoso, agressivo, corajoso, cheio de personalidade e soa como um berro carregado de esperança direto na direção do ouvinte. É um trabalho brilhante e que, esperançosamente, servirá para reconhecerem Brody por seu sobrenome artístico, Dalle, diminuindo o rótulo de “esposa de Josh Homme” e consolidando sua influência no legado musical.

Nota: 9/10