Arcade Fire

Arcade Fire

Nesta semana, a coluna Faixa Um se dedica a algumas das principais atrações do Lollapalooza Brasil, que ocorre em São Paulo, no próximo fim de semana.

Não há no mundo banda igual ao Arcade Fire. É possível listar ascendentes e descendentes, referências e adoradores, influências e plagiadores. Mas como o sexteto canadense, não. Acostumado às urbanidades do rock básico de The Strokes, Franz Ferdinand e The White Stripes, poucos apostariam que os líderes da revolução indie seguinte seria provocada por um grupo canadense um tanto heterogêneo, com tentáculos espalhados no folk, no rock épico de estádios, na levada dançante do Talking Heads de David Byrne e no alternativo de Neutral Milk Hotel e do supergrupo conterrâneo Broken Social Scene.

A faísca surgiu um pouco antes, mas virou catarse em 2004 com o lançamento de Funeral, o álbum de estreia do Arcade Fire. Nos últimos dez anos, a banda chegou muito além do imaginado por fãs, “especialistas” e eles mesmos. Além de se tornar referência na cena indie, levou o Grammy de Álbum do Ano em 2011 por The Suburbs (2010), virou headliner do Coachella e outros tantos festivais, queridinha de David Bowie e objeto de críticas de Trent Reznor e Noel Gallagher, motivo de celebração para quem despreza a verborragia desenfreada dos dois. Um currículo surpreendente para quem começou com um disco emocionalmente desesperado como Funeral, ao mesmo tempo um álbum lúgubre e revigorante.

De emoções e intensidade todos os quatro álbuns do Arcade Fire estão repletos, seja nas entrelinhas de Reflektor (2013), na densidade de Neon Bible (2007) ou na objetividade poética de The Suburbs. Enquanto o conjunto transita por estilos musicais e referências artísticas ao longo da discografia, a grandeza dos arranjos e os versos sofridos seguem firmes; e isso tudo começou lá atrás, em Funeral, mais especificamente com “Neighborhood #1 (Tunnels)”, a primeira das quatro faixas da “saga” Neighborhood de Funeral, completada por “#2 (Laïka)”, “#3 (Power Out)” e “#4 (7 Kettles)”.

Faixa um do primeiro disco do Arcade Fire, “Neighborhood #1 (Tunnels)” foi o primeiro single do disco, e apesar de não ter tido a recepção popular de “Rebellion (Lies)” ou “Wake Up”, encapsula tudo – ou muito – do som dos canadenses na década seguinte. Da introdução contemplativa ao fim colossal, amarrados por uma dinâmica constantemente crescente, “Tunnels” reúne o ritmo simples e contagiante de tantas outras faixas da banda, enfeitado por arranjos de cordas, acordes insistentes no piano, guitarras e baixo perfeitamente sujos e os vocais desesperados de Win Butler em versos que dão margem a interpretações românticas ou sociopolíticas, temas também recorrentes na carreira do grupo.

Não é fácil entender o som do Arcade Fire. É preciso livrar-se de preconceitos, encontrar o humor certo, e se deixar envolver menos pelo hype e mais pela sinceridade da obra. Para isso, “Neighborhood #1 (Tunnels)” é perfeita, e fica o alerta: uma vez encantado pela banda, não há mais volta.