Vazou! Bob Dylan, Macaco Bong, Dave Matthews Band
 

Vazou! Bob Dylan, Macaco Bong, Dave Matthews Band

Bob Dylan – Tempest

Não é fácil escrever sobre Bob Dylan. É difícil analisá-lo, absorvê-lo, e toda e qualquer crítica a um dos artistas mais relevantes do último século pode ser facilmente rebatida, questionada, ou simplesmente descartada. Eu mesmo posso duvidar de mim mesmo em algum ponto, considerando a complexidade. E aí eu decido resenhar o novo álbum dele. O trigésimo quinto. Poucos dias depois do álbum cair nas garras da internet. Maluquice, com certeza.

Assim como toda a obra de Dylan, Tempest é um álbum para ser apreciado com exclusividade. Não é um disco feito para o tempo em que foi lançado, onde multitarefa é sinônimo de rotina. Tempest pede calma, parcimônia, tempo livre. Além da profundidade, há a longa duração do álbum: são 69 minutos divididos em 10 faixas.

Como de praxe – trantando-se de Zimmerman – As letras aqui funcionam como verdadeiras narrativas, nunca como um amontoado de sílabas e palavras usadas aleatoriamente para costurar uma melodia. A mais evidente é a faixa-título, em que Dylan reescreve o naufrágio do Titanic em 45 versos, sem um único refrão, que duram quase 14 minutos. Em “Soon After Midnight”, por exemplo, Dylan fala de amor, mas à sua maneira: há morte, mulheres manipuladoras e um eu lírico sofrido, que tem a lua refletida no olhar. Morte, inclusive, é um tema recorrente no disco, definitivamente um dos mais soturnos de toda a discografia do mestre.

Os arranjos de Tempest, produzidos pelo próprio Dylan, cumprem a função com maestria. Gravado pela banda que acompanha o compositor na estrada (e que veio ao Brasil no primeiro semestre), com participação do multi-instrumentista David Hidalgo, do Los Lobos, o instrumental do álbum é construído para criar ambiências e atmosferas como uma trilha sonora, e mesmo quando menos destacado, funciona como uma especie de cama sutil para os longos versos recitados pela voz cada vez mais rasgada de Dylan.

O fato de qualquer músico, compositor ou cantor lançar um disco do nível de Tempest aos 71 anos poderia ser surpreendente se estivéssemos lidando com a esmagadora maioria dos seres humanos. Mas no caso de Dylan, Tempest vem apenas para provar sua maestria.

Nota: 9,5

Macaco Bong – This Is Rolê

Quatro anos depois da elogiadíssima estreia em 2008, com Artista Igual Pedreiro – o melhor álbum daquele ano, segundo a Rolling Stone Brasil – o Macaco Bong finalmente lança seu segundo álbum, o aguardado This Is Rolê.

Apoiado pelos pilares da rede de coletivos independentes Fora do Eixo, cuja origem se mistura à da própria banda, o Macaco Bong é uma das bandas que mais viajou pelo país nos últimos anos, e a experiência adquirida é refletida com clareza no novo trabalho.

This Is Rolê começa com uma série de pancadas. A primeira metade do disco reúne algumas das faixas mais pesadas do trio cuiabano, o que não é novidade para quem teve a sorte de presenciar um show do grupo nos últimos dois anos. O riff inicial de “Otro” parece extraído diretamente de um álbum qualquer do Queens Of The Stone Age, e o ode ao stoner rock segue em faixas surpreendentes como a própria “This Is Rolê” e “Broken Chocobread”.

Só a partir da quinta música, “Copa dos Patrão”, o ritmo e as distorções começam a diminuir. Apesar de serem excelentes autores e intérpretes de música pesada, Bruno Kayapy (guitarra, violão e viola), Ynaiã Benthroldo (bateria) e o novato Gabriel Murilo (baixo) – que entrou na banda pouco antes da gravação do disco – conseguem resultados ainda mais interessantes quando seguram a mão.

Prova disso é a trinca “Mullets”, “Summer Seeds” e “Seu João”, três das melhores e mais belas músicas que o Macaco Bong já produziu. Agregando influências de indie rock, música regional e rock alternativo, as faixas conseguem introduzir novos elementos à sonoridade do Macaco Bong sem perder as características apresentadas em Artista Igual Pedreiro, com resultado original e de forte identidade própria.

No geral, This Is Rolê não é coeso e impressionante como Artista Igual Pedreiro, mas ganha pontos em ecleticidade e inventividade. Sem dúvida, uma das bandas mais talentosas do Brasil.

Nota: 9

Dave Matthews Band – Away From The World

Na última terça (4) a Dave Matthews Band liberou o novo álbum de estúdio do grupo, Away From The World, para audição gratuita no iTunes. Denso e complexo, Away From The World sucede o emocional Big Whiskey & The Groogrux King (2009), um disco marcado pela insuperável morte do saxofonista LeRoi Moore, cerca de um ano antes do seu lançamento.

No entanto, se libertar do luto não fez com que Dave Matthews gravasse um álbum mais simples ou mais fácil. Pelo contrário; Away From The World é musicalmente mais profundo e reflexivo, e mesmo em letras obviamente românticas, as melodias são ricas, bem construídas e imprevisíveis. São certamente a maior qualidade do disco.

O virtuosismo instrumental da banda, sempre comandado pelo excepcional baterista Carter Beauford, dá lugar a arranjos mais centrados e objetivos em Away From The World – mudança notável especialmente se compararmos o novo disco ao anterior. Não chega a ser uma mudança drástica, mas é suficiente para fazer as composições brilharem mais que as performances.

Com os exageros limitados às excepcionais apresentações ao vivo da DMB, o novo álbum soa mais acessível para os fãs menos fanáticos do grupo. Isso não significa que Away From The World é mais comercial; na verdade, ele talvez seja o mais ousado artisticamente desde Before Those Crowded Streets (1998). Significa apenas que, pela primeira vez em muitos anos, a Dave Matthews Band soa vigorosa e bem-decidida.

P.S.: preste atenção à nada sutil referência a “Breathe”, do Pink Floyd, lá nos minutos finais de “Drunken Soldier”, a última – e na minha opinião, a melhor – faixa do disco.

Nota: 7,5