Gaía Passarelli

Gaía Passarelli

Gaía Passarelli foi uma das fundadoras do portal rraurl.com, que começou em 1997 como um zine de música eletrônica e evoluiu para uma verdadeira revista eletrônica completa, com espaço para diversos estilos diferentes como o alternativo e o pop.
Recentemente a moça foi contratada pela MTV Brasil para ser VJ da casa, e com seu programa Goo, ajudou a emissora a retomar o caminho da boa música ao lado de colegas de firma como Chuck Hipolitho e China.

Batemos um papo bem legal com Gaía, sua história, a MTV, música atual e mais.
Leia logo abaixo.

TMDQA!: Esse ano a MTV Brasil parece ter iniciado uma busca por “voltar às raízes”, ao trazer mais programas e quadros de música de volta à programação, sendo muitos deles recheados de novas bandas e artistas, como o Goo MTV, que você apresenta. Como você acabou se envolvendo nesse processo e como vê essa mudança de postura da emissora?
Gaía: Eu vim parar aqui pq comandava o rraurl, que estava dentro do Portal MTV. Conheço gente que trabalha na emissora e uma hora pediram pra eu indicar uns amigos pra teste de VJ. Não rolou com nenhum deles e eu, meio brincando meio falando sério, soltei um “ah, então deixa eu fazer o teste!” e fui, fiz, rolou e aqui estou. Não acho que a MTV quer voltar aos anos 90, mas ela quer se reencontrar e isso não vai acontecer em um semestre ou um ano. E não é só aqui. A matriz também está nesse movimento – o 120 Minutes voltou! Aqui ainda ouço as pessoas falando que “bom era quando a MTV tinha música” mas acho que elas ainda não se tocaram que a MTV Brasil de hoje tem o Goo, o Na Brasa, o Big Audio, o Extrato… O programa pop por excelência da MTV, o Acesso com a Titi e a Mari Moon, é também um programa de música – tudo que elas contam, de fofoca a cinema, passa por música pop. O adolescente de hoje gosta de música tanto quanto o adolescente que ouviu Duran Duran nos anos 80 e o adolescente que pirou com o Nirvana nos 90. Música tem, difícil é saber como mostrar. É isso que a MTV tem que descobrir. Ou inventar.

TMDQA!: Entre vários trabalhos envolvendo a música, você já havia trabalhado com televisão? Como tem sido a experiência pra você?
Gaía: Nunca tinha trabalhado com TV. O mais perto disso tinha sido a experiência dos programas de web-tv do rraurl. Tem sido legal. Mas é o começo, acho que o Goo ainda vai mudar um pouco até acertar o formato – afinal estamos na TV pras pessoas verem, não é interessante nem pra gente nem pra MTV se for só um programa de música estranha que meia dúzia assiste na madrugada.

TMDQA!: Com o Goo vocês sempre buscam ir atrás do que há de mais legal rolando principalmente na cena indie, e cobrir festivais como o Pitchfork Music Festival, que não são muito divulgados por aqui e gigantes lá fora. Como tem sido a resposta do público do programa a essa abordagem?
Gaía: É um nicho dentro da MTV. Nosso facebook, por exemplo, tem cerca de 3000 seguidores – é pouco se comparado à audiência real da emissora ou mesmo à audiência do rraurl em tempos áureos. Mas a gente já percebe que tem uma audiência fixa, as pessoas que escrevem sempre, participam, dão sugestões. E a gente percebe que cada vez mais gente comenta. Rola uma troca. É bem legal.

TMDQA!: Ainda sobre o Pitchfork, como foi a experiência de cobrir o festival, que é conhecido por trazer um montão de novos e interessantes nomes da música?
Gaía: Foi demais mas, honestamente, quando a gente viaja com TV não dá pra ver muito show. Não é uma viagem de férias pra curtir um festival. É o esforço pra trazer o material bacana de volta que vale. Voltamos com quatro programas especiais gravados. Recebemos um retorno super positivo, inclusive de dentro da emissora. Daí é bom demais, porque o Goo é um programa estritamente musical, então perceber que a MTV gostou, percebeu o potencial, é ótimo – e ajuda a enterrar a idéia de que não tem música na MTV Brasil.

Gaía Passarelli

TMDQA!: O que você acha que pode ser trazido de exemplo e experiência dos festivais lá fora para os festivais aqui no Brasil?
Gaía: O comportamento do público, em primeiro lugar. Não adianta o festival oferecer lata de lixo se o público não usa. E, por parte do evento, o cuidado logístico – é impressionante como as coisas são eficientes nos EUA. Estacionamento, fila, banheiro, comida, venda de disco e camiseta… nego sabe que eficiência resulta em dinheiro, e investe nisso.

TMDQA!: Como é feita a seleção de pautas para o Goo MTV? Você tem participação direta na escolha das matérias que serão produzidas?
Gaía: Tenho total participação. Eu e a Mari Metri, diretora, decidimos tudo em dupla. Cada uma traz suas sugestões e nós fechamos juntas as pautas da semana. Normalmente a Mari escreve o roteiro e eu acrescento informações quando vamos gravar. Eu sempre faço a pauta e as perguntas das entrevistas, escolho os clipes que vão pros fins de bloco, a Mari foca na produção e edição. Mas a troca é constante, não tem um “dono”, é um trabalho de dupla e é legal demais. De cara quando rolou o convite eu achei que não tinha sentido eu ir pra TV se fosse apenas pra apresentar um programa – podiam chamar qualquer menina loira e linda de vinte poucos anos pra ler um texto. O que a MTV quer é minha especialidade então eu tenho que atuar na pauta. Isso é gratificante.

TMDQA!: Qual é o limite da “democratização” de matérias em um programa como o Goo? Ser aberto demais à diversidade de culturas musicais não pode atrapalhar o programa  à criar um público cativo?
Gaía: Talvez. Mas sempre tem um fio condutor, um conceito pro programa – é música nova. Claro que, quando a gente faz um especial (ex: “conheça o selo Drag City”) a gente tem que ir até o passado pra contextualizar, explicar. E que a gente não precisa, na TV, ter a mesma urgência dos blogs de música onde o semana passada é morto e enterrado. Ao mesmo tempo não interessa pra MTV mais um programa “de estilo musical”. Se a gente fosse restringir o Goo seria o que? Um programa de música eletrônica? De indie rock? Esses gêneros todos hoje são muito elásticos e conversam o tempo todo. O que a gente quer mostrar é justamente a variedade do que é novo hoje.

TMDQA!: No Rraul você trabalha com a proposta de tratar notícias de diversos estilos musicais e cidades de forma mais democrática ao invés de se restringir aos chamados “nichos”. Como foi adaptar essa proposta à televisão?
Gaía: Na TV o Goo é nicho. Mas ainda assim é mais aberto que o rraurl, porque tem que tentar falar com uma audiência mais aberta. Acho que o primeiro semestre do Goo foi uma tentativa de fazer um statement – “olha, a gente curte witch-house! olha, especial kraut-rock! olha, indie-dance australiano!”. Foi de mostrar que na MTV Brasil rola passar trecho de show do Can, entrevistar a Nite Jewel no porão de um boteco sujo em Austin, mostrar o clipe novo do Die Antwoord, etc. Pra nego olhar e ficar espantado mesmo. Agora a hora deve ser de mostrar que a gente faz isso e ao mesmo tempo é capaz de despertar o interesse de mais do que meia dúzia de fãs de música estranha. É uma missão!

TMDQA!: Como fundadora do rraurl, como você vê o cenário da música eletrônica brasileira hoje?
Gaía: A maior parte do que eu vejo de “música eletrônica” me parece parada no tempo e não me interessa. Mas não precisa ser assim, já que existe muita música nova, boa e, por que não, inovadora sendo feita no underground – taí a cena LA Beat, novos nomes do hiphop, o pós-dubstep melancólico da Inglaterra, incontáveis bandas mundo afora… São poucas as vezes que saio de casa e me divirto por causa da música. Sinto, pelo que acompanho, que no cenário de clubs e festas rola um saudosismo forte, de tentar eternamente repetir o que era inovador há uma década. E eu ouvi música eletrônica pra valer há uma década, década e meia. Foi ótimo e deixou minha expectativa meio alta. Agora, sempre existem festas incríveis com bons DJs. Mas elas estão no underground, não são as festas que gastam fortunas com cachê de DJ gringo e anunciam “melhor festa segundo o jornal X”. Você tem que procurar pra saber.

TMDQA!: Como você tem lidado com o rraurl e todos seus outros trabalhos paralelos depois que se tornou apresentadora da MTV?
Gaía: Eu não faço mais parte do rraurl. Eu saí do site em março. Mas continuo escrevendo umas notinhas curtas. Escrevo também pra Noize e pra Rolling Stone Brasil. E, hey, você que está lendo: sou freela, escrevo, aceito encomendas!

TMDQA!: Na sua opinião, o que há de melhor e o que há de mais chato na música hoje em dia?
Gaía: A música pop formato cantora-diva com música lixo e atitude bad girl de plástico cantando em falsete.

TMDQA!: No Brasil, que artistas você considera promissores?
Gaía: Meu colega China que me perdoe, mas não faço a menor. Posso falar só do que eu conheço, que é o Boss in Drama – o disco novo é ótimo. Gosto do Garotas Suecas e do Holger e parece que não sou só eu. Ouvi pouco o Criolo, mas gostei do que ouvi. E tem as Vespas Mandarinas, que eu só conheci esse ano e nem é o tipo de som que eu costumo escutar, mas me peguei gostando.

TMDQA!: Que discos você tem ouvido hoje em dia e que não podem sair do seu mp3 player/vitrola e que você recomendaria para que um amigo próximo ouvisse?
Gaía: Acabei de ouvir uma banda chamada Motel Beds que lembra BRMC e Yo La Tengo e eu gostei. Gosto muito dos discos desse ano do Raveonettes, do Kills, Girls e Peter Bjorn & John. Tento não me pautar mais pelo que acabou de sair e ouvir com atenção cada disco, e às vezes fico meses parada numa coisa só. Hoje as coisas datam numa velocidade assustadora, mas não me quero ter um gosto super descartável.

TMDQA!: Apesar de trabalhar mais com o alternativo, que nomes você acha interessantes no mainstream hoje em dia?
Gaía: Olhando a parada pop de hoje da Billboard tem Katy Perry, LMFAO, Nicky Minaj, Britney e outras coisas que eu nunca ouvi falar. Dessas só ouvi mesmo o LMFAO e acho uma bosta. Enfim, tentando responder sua pergunta: não sei direito oq é mainstream hoje, acho que depende da fonte. Sei que toda a vez que vejo Katy Perry, Britney, Rihanna e afins acho um lixo. Mas respeito a Beyoncé como a Diana Ross dos nossos tempos e dou graças as céus que o Kanye West e a Lady Gaga existam, pq pelo menos ele é criativo uma força criativa impressionante e ela cita Bowie e Madonna. Ou seja, sem eles as coisas poderiam ter ainda menos graça.

TMDQA!: Qual você acha que é o papel de blogs de música feitos por fãs de música, como o TMDQA! por exemplo?
Gaía: Em alguns casos é como o NME – as mesmas notícias que você já viu em todo lugar. Mas em outros é como (quem tem mais de 30 anos vai entender) encontrar aquele zine xerocado numa lojas de discos, cheio de coisas que você vai adorar conhecer. De qualquer forma, ajuda a organizar o caos musical. Gosto menos da repetição de notícias curtas e mais do segmento de blogs que se encaixa no que chamam de “sharity”- longos posts, dedicados à artistas/bandas/discografias/cenas específicos cheio de links pra download. Quando eu era adolescente e estava formando meu gosto musical a coisa mais dinâmica que tinha era o Folhateen e a MTV – isso dá uma idéia do quanto é satisfatório ter ferramentas como hypem.com e o rcrdlbl, além dos blogs propriamente ditos. Há um excesso de repetição e uma supervalorização do formato mas ainda assim existe independência e espírito colaborativo na maior parte dos blogs que leio. Isso é importantíssimo.

TMDQA!: Você tem mais discos que amigos?
Gaía: Tenho mais discos que amigos, e nem tenho tantos discos assim!