Entrevista: Chuck Hipolitho

05.05.2011 | Por | Publicado em Entrevistas
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Entrevista com Chuck Hipolitho
Fotos por Gaía Passarelli

TMDQA!: Quando você saiu do Forgotten Boys você declarou que precisava tocar sua vida de maneira diferente. O que mudou do Chuck do FB para o do Vespas Mandarinas?
Chuck Hipolitho: Cara, quando eu saí da banda eu só queria parar de viajar e descansar, e para poder dar atenção à Débora que estava grávida e tal. É claro, isso tudo na época me fez repensar várias coisas a respeito da minha própria vida. Hoje percebo que não havia mais uma identificação profissional com os rapazes, e isso na época estava me fazendo sofrer pois eu sempre amei muito todos ali, e sempre amei muito a banda, e estava percebendo que teria que dizer tchau logo logo.
Esperei gravar o Louva-a-deus, que acho que foi o projeto mais bacana e diferente comigo envolvido. Foram 10 anos de dedicação, mas, uma hora acabou para mim, então saí. Comecei a me dedicar ao meu estúdio, a aprender gravar, produzir, pois não queria saber de tocar tão logo. Nesse meio tempo me conheci melhor, virei pai, tudo mudou e acho que amadureci um bocado. Comecei a me aproximar do Mauro, do Thadeu, e sempre tive uma vontade de fazer algo com o Mike, então nos juntamos e formamos as Vespas Mandarinas, que era para ser um projecto solo meu, mas, seria um desperdício.
Passei a ouvir mais coisas brasileiras, coisas que já gostava desde criança, e comecei a me conectar mais a isso. Acho que sou uma pessoa mais madura, mais segura e sem tantos pudores artísticos que eu tinha na época.

TMDQA!: Em uma entrevista para o Rock ‘n’ Beats no início deste ano você falou que o Vespas Mandarinas não tem vergonha de ser Rock Pop. Porque haveria essa vergonha e que bandas e elementos dos anos 80, como você citou na ocasião, estão influenciando o som do grupo?
Chuck Hipolitho: No Brasil existe um orgulho indie muito grande, como se não pudéssemos fazer algo que fosse comercial ou que almejasse coisas maiores, não estou falando de sucesso, estou falando de conexão com o público. O artista aqui parece ter um medo muito grande de fazer sucesso ou pior que isso, se sente envergonhado quando algo rola, no palco se porta com respeito demais.
As pessoas querem alguém que suba no palco e se sinta seguro o suficiente para chegar a enfrentar o público e se divertir lá em cima senão a coisa não tem graça, não é um show, não muda a vida de ninguém. E para isso não importa o gênero. E isso o pop te proporciona, ninguém precisa se vender para isso.
Estamos fazendo um som que acreditamos, ainda engatinhando em termos profissionais, mas, creio que estamos na direção certa. Isso é o que importa. Temos como influencias coisas como os Paralamas, Titãs ná época áurea, Legião… cara, qualquer coisa MESMO, ruim ou boa, a gente acha alguma coisa que se aproveite para colocar no que fazemos… portanto acho que estamos fazendo algo honesto, e verdadeiro. Rock Pop Indie (risos) como eu disse, estamos engatinhando. Apenas não temos vergonha na cara, e acho que isso tem tudo a ver com ter uma postura Pop. Mas, como viemos do Rock, ele nunca sairá da gente também, é uma atitude de base. Todo o trabalho novo dos Foo Fighters ilustra isso que eu já acreditava ser possível há uns bons 7 anos.

TMDQA!: O wikipedia me disse que “vespa mandarina” é um inseto japonês e é a maior vespa do mundo. Qual o porquê da escolha desse nome para a banda?
Chuck Hipolitho: Eu sou um geek aficcionado por essas coisas, e já conhecia a tal vespa. Quase fiz vestibular para biologia.
Enfim, chegou a hora em que a banda tinha que ter um nome. Cheguei a querer que se chamasse Radio Radio por causa de um som do Costello, mas Vespas Mandarinas era mais forte, feminino e remete a algo coletivo… ficou Vespas.

TMDQA!: O André e o Flavinho do Sugar Kane fazem agora parte também das Vespas Mandarinas. Por que houve essa mudança no lineup do grupo e como você decidiu chamá-los?
Chuck Hipolitho: A banda começou completamente desencabada, mas gerou um retorno legal. Isso demandou agenda e certas obrigações. Aos poucos os interesses começaram a se diferenciar dentro da banda, o Mike morava em Porto Alegre, mas, infelizmente acabamos não conseguindo conversar do jeito que queríamos e rolou um desentendimento.
Com o passar do tempo, muito silenciosamente e rapidamente fomos nos distanciando, por isso acabou nisso, Mauro e Mike fora da banda. Somos todos amigos e nos amamos, isso é o que importa. Mas aí ficamos sem baixista e baterista. Eu já tinha gravado e produzido o Sugar Kane no Costella e assim conheci melhor o André e o Flavinho.
O André é o baterista mais espetacular que conheço hoje em dia aqui no Brasil e ambos são extremamente generosos e fáceis de lidar. Convidamos e logo se identificaram com nossa proposta, estão com a gente agora. Mas, é claro, se dividem entre as Vespas, Sugar e tantos outro projetos, é legal isso.

TMDQA!: O segundo EP das Vespas Mandarinas, “Sasha Grey”, será lançado neste ano pelo selo Vigilante. Já tem data para o lançamento oficial? E quando sairá o videoclipe da faixa que dá título ao registro? Estamos todos ansiosos pelo compacto e pela homenagem a essa grande atriz.
Chuck Hipolitho: Depende de assinarmos um contrato que está sendo revisado. É muito chato tudo isso, e trabalhoso, mas, necessário. Está tudo praticamente pronto e estamos muito felizes que sairá pela Vigilante, selo do Rafael, com quem tenho uma grande afinidade e confiança. E ama música como eu. Como a gente. Não vemos a hora de liberar tudo.
Estamos esperando algum louco aparecer para dirigir um clipe, custo zero, pois não temos e não teremos dinheiro para isso (risos).  Aliás, Sasha Grey acabou de abandonar a industria pornô, mais propaganda involuntária para a gente, espero que ela fique grávida logo ou que faça propaganda para a Devassa (risos).
Quero registrar as 4 músicas ao vivo num estúdio e fazer um clipe com isso e lançar o material na internet logo, para somar ao lançamento.

TMDQA!: A track listing vai ser composta pelas quatro demos postadas no Soundcloud da banda ou haverá mais? Sabemos que existe uma nova chamada “O Amor e o Ocaso”, mas a demo não se encontra no Soundcloud.
Chuck Hipolitho: Juro, temos coisas para 2 discos. O Thadeu simplesmente não para de compor. Precisamos começar a mapear as músicas e arranjar tudo, mas vem muito coisa legal por aí. “Amor e o Ocaso” é irmã da “Pesadilla”, balada arrastadona com linhas de guita que vieram inspiradas por coisas do Frusciante.
Temos uma demo mas, ainda não a música em si, portanto não vamos liberar essa demo, é como se ela não existisse ainda. Queremos juntar coisas para um disco especial num futuro, se o próprio nos permitir e nos levar a isso. É preciso calma.

TMDQA!: Já que o assunto é EP, no ano passado você se reuniu com o Black Drawing Chalks para formar e lançar o projeto Love Bazukas. Ele vai ficar estacionado só naquele EP homônimo ou podemos aguardar uma continuação?
Chuck Hipolitho: Com certeza, quando for a hora certa. Quando acabamos de gravar aquilo tínhamos combinado que o próximo seria somente covers da PJ Harvey, mas, não sei não. O nome já existe, Speed Panderolas. Quero trabalhar com tanta gente esse ano. Tinha a ideia de montar um tipo de Stooges com alguém do Hip Hop no vocal. São projetos que tenho em mente.

TMDQA!: Seu novo programa de TV, Big Audio MTV, tem sido comentado pela maioria como “o retorno da boa música na TV”. Como você se sente sabendo que está envolvido nisso?
Chuck Hipolitho: É um tesão. A MTV resolveu resgatar certos valores, os musicais principalmente. E a tendência é melhorar. As pessoas ainda estão começando a ter a percepção de que algo mudou para melhor. Depende de tempo. Mas, olha, não é só o Big Audio. Tem o “Na Brasa” com o China, o “Top Mundi” com o Didi, o Goo (que é meu favorito) com a Gaía, e o Grêmio Recreativo com o mestre Arnaldo Antunes. Na verdade, o tesão maior é saber que meus chefes são do caralho, e estão fazendo tudo isso por amor à televisão e música de verdade. Por isso eu acho tudo muito louco, ser VJ, apresentar um programa com o corte musical que é o Big Audio, fazer o Extrato… é um tesão mesmo. E acho que o ano que vem será ainda mais incrível.

Entrevista com Chuck Hipolitho

TMDQA!: Como aconteceu a idéia dele? Seria realmente uma espécie de tentativa de volta ao passado em termos de estilo da emissora?
Chuck Hipolitho: Não exatamente ao passado, mas a certos valores. Eu tinha umas ideias malucas e fui conversar com o Alessandro Mello, meu chefe, que é meu amigo de Pirassununga e está na MTV há uns 15 anos já. Ele acabou me chamando para o piloto de algo que era o protótipo do Extrato, algo como o Heavy Metal Show, comigo e mais duas garotas, mas não rolou.
Ele então teve a ideia do Big Audio (que não tinha nome até 15 dias antes de estrear) e fizemos uns testes… e rolou.
Trabalho junto com o Miguel que é meu diretor e também é apaixonado por música, e nossa estagiária que é outra, e fã de Iron Maiden. Tenho outras ideias ainda que espero um dia colocar em prática lá dentro, é preciso tempo, trabalho duro e paciência.

TMDQA!: Você acha que ter um músico e produtor apresentando um programa na MTV, assim como você, passa mais credibilidade para o público que assiste?
Chuck Hipolitho: Certamente. Mas, o principal é passar a confiança de ser alguém apaixonado e ecléctico e simpático, que não vai ficar cagando regra e ainda assim ter uma personalidade crítica. Mas ser músico faz a gente gostar de música de um outro jeito, sem muito julgamento crítico tradicional, apenas paixão mesmo. Acho que é mais próximo de como a audiência escuta música.

TMDQA!: Entre coisas velhas e discos lançados esse ano, o que você mais tem ouvido atualmente?
Chuck Hipolitho: Admito que fui obrigado a me atualizar um pouco (risos).
De novo mesmo eu não estou louco por nada, apenas conhecendo e me aproximando, a não ser de coisas como tUnE yArDs que a Gaía passa no Goo e me deixam impressionado. Tenho ouvido esses últimos dos Foo Fighters e dos Strokes, aguardo muito o do Noel e do Arctic Monkeys.
Ggostei muito do novo dos Raveonettes que ouvi bastante por tabela, o último do Edwin Collins é foda. Na verdade, essa semana que passou ouvi somente Ramones. Só Ramones.

TMDQA!: Como diretor, o que você está achando dos clipes lançados recentemente? Que bandas têm chamado a sua atenção com trabalhos nesse sentido? O YouTube definitivamente revolucionou os modos como as coisas são feitas, não?
Chuck Hipolitho: Com a aparição do YouTube as bandas começaram a fazer coisas cada vez mais interessantes. Foi como se a MTV tivesse aparecido muito anos atrás, foi preciso as pessoas fazerem coisas diferente e melhores. Eu amo clipes criativos e artísticos.
O Vampire Weekend, apesar de eu não seu grande fã deles, me chamou atenção para os clipes. Os Arctic Monkeys sempre apavoram nesse assunto e o Dave Grohl tem feitos coisas absurdas com VHS, amei isso. Lançar clipe ruim lá fora está fora de cogitação para as bandas. Mas achei esse último dos Strokes (o primeiro do disco novo ) muito ruim. Ao contrário daquele do Julian, que é um dos melhores que já vi.

TMDQA!: Passar pelo fim de um relacionamento já é difícil. Quando ele é estampado nas páginas e programas de fofocas por aí deve ser ainda mais. Como isso afetou seu processo produtivo e as decisões que tomou para sua carreira em todas as frentes?
Chuck Hipolitho: Acho que eu sempre fui uma pessoa reservada, e Débora então nem se fala. Temos uma filha, e todo mundo só ficou sabendo do que rolou 3 meses depois.
Fizemos com cuidado e nem demos muita atenção para o que saiu. Acho sinceramente que existe uma indústria que se alimenta disso, mas também acho que existem pessoas que alimentam isso. Não era o nosso caso. A separação me fez pensar em ter algo estável, pois temos uma filha. E o sonho de ser músico com banda que vale a pena em termos de dinheiro já se foi há muito tempo, então agarrei esse trabalho da MTV com muita força, e vou continuar trampando no Costella.
As Vespas eu levo muito a sério, mas, se rolar, rolou, se não rolar, continuaremos fazendo porque é o que amamos. Me vejo como uma pessoa mais madura e mais prática hoje.

TMDQA!: Você tem um estúdio chamado Costella. Por conta do tempo reservado para a MTV, você precisou abriu mão de produzir algumas bandas. Há alguma previsão de quando voltará a fazer isso?
Chuck Hipolitho: Abri mão de tudo para o começo, pois queria começar muito bem. Foram 2 meses de trabalho antes de estrear na MTV, portanto o estúdio parou. Agora estou voltando aos poucos, e contratando 1 ou 2 engenheiros para trabalhar lá e usar minha estrutura. Estou mixando o DVD dos Street Bulldogs que gravei no final do ano passado, vou fazer o áudio de um show do Rancore e ando mixando bandas, que dá menos trabalho. Não vejo a hora de voltar a produzir e gravar. Daqui a 1 mês as coisas já estarão muito mais tranquilas.

TMDQA!: Ok, sabemos que o Elvis Costello é seu. Mas poderia ao menos explicar para nós como foi que surgiu esse amor? Qual disco ou música você indicaria para uma pessoa que não faz a mínima ideia de quem ele seja?
Chuck Hipolitho: HAHAHAAH Conheci por causa dos Raimundos que gravaram “Oliver’s Army” quando eu morada em Pirassununga ainda, sem Internet e tudo que existe hoje.
Quando fui morar fora comprei uma coletânea e pirei. Eu nem sou fã de carteirinha dele, apenas apaixonado pela figura. O jeito que ele canta, que se comporta… ele é demais. E faço essa brincadeira de que ele “é meu” assim como faço com os Hellacopters. hahahahaha mas, é só brincadeira. Recomendo 100% o “My Aim Is True”, o primeiro dele.

TMDQA!: Qual artista ou banda você acha que está recebendo atenção demais da mídia?
Chuck Hipolitho: Putz… não sei.
Cara, nem acho que é da mídia… me entristece a atenção que os adolescentes brasileiros dão para certas merdas coxinhas que estão por aí. Reflete toda uma geração de pessoas coxinhas. Música de merda, complemente descartável, que não vai servir para nada daqui a 2 anos. E se muda a vida de alguém, é para pior.

TMDQA!: O que você está achando das atuais bandas de rock brasileiras? Qual delas tem chamado sua atenção?
Chuck Hipolitho: Estou ansioso para o disco da banda Cascadura, que deve sair logo logo. Vivendo Do Ócio, acho que gravarão um lindo disco esse ano, e acho que estarei envolvido. Tenho certeza que estou esquecendo um monte de gente.

Entrevista com Chuck Hipolitho

TMDQA!: Qual conselho você daria para um moleque que está começando a tocar guitarra?
Chuck Hipolitho: Ouça Ramones, aprenda com os Ramones. Aprenda a tocar o instrumento, aprenda a tocar bateria, aprenda a tocar baixo, aprenda a cantar, aprenda a compor, use a internet, seja um louco, e se prepare para mandar tudo a merda caso resolva levar a parada a sério de verdade. Ouça Black Sabbath.

TMDQA!: Se pudesse produzir qualquer banda no mundo, mesmo que ela não exista mais, com qual você gostaria de trabalhar?
Chuck Hipolitho: Os Muzzarelas.

TMDQA!: Você tem mais discos que amigos?
Chuck Hipolitho: Tenho 20 vezes mais discos do que amigos, certamente. E nem acho que tenho o suficiente (discos).

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