Porto Musical 2011 - Charles Gavin
 

Quando divulgaram o nome do Charles Gavin, ex-baterista dos Titãs, na programação do Porto Musical 2011 tive a certeza de que ele traria histórias interessantes relacionadas diretamente ao TMDQA!

“A música do meu cérebro: um bate-papo sério, mas divertido, sobre memória da música brasileira, mercado fonográfico, discos e demais histórias”, este foi o tema de sua conferência. Durante ela, Charles falou sobre suas experiências, ainda como baterista do Titãs, com artistas brasileiros que foram esquecidos e sobre sua relação com os discos de vinil.

Após sua conferência, Charles atendeu diversas pessoas que queriam saber um pouco mais sobre as histórias e dividir as suas com ele. Depois de um bom tempo de espera, Gavin parou durante alguns minutos e conversou comigo, Colombia e com a Aline Mota, que escreve para o site Rooda Cultura. Acompanhe abaixo!

Porto Musical 2011 - Charles Gavin
(Fotos por Tiago Calazans e Beto Figueroa para o Porto Musical 2011)

Colombia: O que você está achando do Porto Musical e o que achou de sua conferência? Qual a importância de um evento como este?

Charles Gavin: Os assuntos que estão sendo colocados aqui são muito pertinentes, e é muito importante que se discutam coisas como o uso da música no domínio digital, como a música brasileira pode ser vendida fora do Brasil da maneira adequada. Eu gostei de tudo que eu vi até agora. Cheguei hoje (25/02/2011) e amanhã vou ficar também. Gostei, também, da minha palestra, do meu bate-papo com as pessoas. Me agradou muito a participação, achei que as pessoas reagiram muito bem, achei gostaram. Curti, também, as intervenções que aconteceram. Assim, eu gosto deste tipo de evento, embora não tenha muita experiência neste, acho que é uma coisa de importância monumental. Aqui funciona como se fosse uma central de idéias e soluções, e isso é fundamental para o nosso negócio. A gente deveria fazer mais isso, aliás, a gente deveria fazer sempre isso! Bom que isso tenha em Recife, que é uma capital importante da música brasileira. É uma cidade realmente importante para a música brasileira. Mas eu não vejo essa iniciativa em outros lugares do país. Acho triste, mas fico contente que isso esteja sendo feito aqui.

C: E sobre Pernambuco, o que é que você está sabendo da produção musical do estado atualmente?

Aline Mota: Tua opinião mesmo. O que tu curtes? O que curtiu?

CG: Eu estou um pouco afastado do estado porque há um ano eu deixei os Titãs. Estou numa ‘reformatação’ da minha vida, mas todas as vezes que eu vim para cá, procurava não só entrar em contato com as outras pessoas, mas ir a alguma loja de discos comprar os produtos independentes. Para mim isso é um barato, eu gosto de fazer isso! Daqui do Recife, a última coisa que eu ouvi e que eu gostei muito foi o trabalho do Siba e a Fuloresta. Ele teve a oportunidade de tocar no Rio de Janeiro e a gente se encontrou, trocamos alguns e-mails. Eu achei fantástico e sou fã de música armorial desde a época do colégio. Quando estou em Pernambuco ou na Paraíba, me sinto muito à vontade com a coisa cultural, com a música que é feita aqui, seja regional ou urbana, tanto faz. Eu fico muito à vontade.

C: E falando um pouco sobre os discos de vinil, o que é que tu estás achando desse revival do vinil atualmente? Com algumas bandas lançando seus discos em vinil e outras tantas relançando no formato.

CG: Acho que a retomada do vinil, na verdade, vem ocupar um lugar, pois houve uma certa banalização da mídia cd, que eu não acho uma mídia ruim, pelo contrário, eu acho uma mídia espetacular. O que houve foi uma má condução do negócio. No meio disso, se resgatou uma mídia que tem uma parte toda lúdica para as pessoas, principalmente para a minha geração. É algo que você pode pegar, manusear. Isso é inerente ao ser humano. Assim, o mp3 é uma mídia interessante, mas é uma coisa que você não vê exatamente. Ela está escondida em algum lugar que você sabe que tá ali dentro do computador, mas você…  (Charles tenta explicar contando uma rápida história). Um produtor de Miami disse uma coisa interessante a um brasileiro que estava aqui ‘Quando você não pode pegar em alguma coisa que gosta, está tirando o significado, talvez, mais importante dela’. Ele estava creditando toda essa digitalização da música a todas as coisas ruins que aconteceram e que foram muito mal avaliadas por parte da indústria. Quando houve a digitalização de quase tudo que a gente consome hoje, houve uma boa avaliação da parte financeira; mas entre partes das consequências das coisas que poderiam acontecer, realmente não existiu uma previsão de todos os problemas que isso poderia acarretar. Dentro disto, tem uma retomada do vinil que eu achei muito saudável, mas eu acho que, assim, é calda longa, pois é um equipamento caro. Os vinis agora são caros, mas é melhor do que antes, pois ele foi dado como morto na década de 90; enterraram o vinil assim. Pra mim ele nunca morreu. Ele sempre existiu e vai existir sempre. O que eu acho bacana do que eu tenho visto fora do Brasil é que, primeiro, o vinil passa a ser uma coisa mais atrativa pra quem gosta realmente da banda. É um atrativo a mais de para ter o objeto, pois é lindo de se pegar. Por outro lado, é uma grande possibilidade de rever discos que, por alguma razão, ficaram caros e se tornaram raros. Então, tem selos que estão retomando discos raros nos Estados Unidos e acho uma coisa genial: lançar um disco em vinil mesmo antes até do cd. Obviamente eu gosto desta onda e acho que ela só tem a acrescentar, mas gostaria que o Brasil tivesse uma tributação menor pro vinil. O vinil que é fabricado aqui é caríssimo. Paga impostos altíssimos.

C: E falando um pouco sobre esse teu amor ao samba-jazz e esse resgate de discos raros deste e de outros gêneros.

AM: Era uma coisa até então desconhecida, pois você mesmo falou ‘É, eu gosto’!

CG: Bem, a música que a gente toca não necessariamente tem a ver com a música que a gente houve. Pode ter a ver, mas não é só isso. Meu lance com o samba-jazz vem, na verdade, do jazz. Eu ouço jazz desde o tempo do colégio. Eu tive a chance de estudar em um ambiente muito rico. Através do jazz eu cheguei ao samba-jazz e, através do samba-jazz, cheguei à bossa-nova. Quando eu cheguei ao samba-jazz, tinha umas coisas bacanas, porque o samba-jazz é nada mais nada menos que o samba brasileiro. O samba com batida, com harmonia brasileira. E isso despertou uma paixão em mim que é difícil de definir. Mas é como se fosse assim, os mestres que eu admirava no jazz, descobri que existia aqui no Brasil e que eu não conhecia direito suas obras. E apesar de não tocar este som na bateria, não saber tocar, é uma coisa que eu me identifico bastante. Acabei me tornando amigo de algumas pessoas, mas eu acho que gosto também porque pessoal me impulsiona a recolocar alguns destes discos nos projetos que eu faço. Acredito que essa é uma música que atravessou fronteiras dos anos 60, foi abandonada, foi esquecida e hoje ela vive uma fase de recuperação. Então, sempre que eu posso colocar samba-jazz nos meus projetos, eu boto.

AM: E quais são seus projetos atualmente? O que você tem feito?

CG: Estou finalizando um documentário sobre a Gravadora Elenco, uma gravadora independente dos anos 60. Este documentário é do Canal Brasil e vai ser exibido no mesmo. Também estou retomando a 5ª temporada do Som do Vinil, que é nada mais nada menos do que a extensão deste assunto que a gente viu aqui: a música brasileira que precisa ser retomada, que precisa ser protegida e levada para as pessoas, afim que elas possam ouvir e se divertir, conhecer, estudar… seja como for. O Som do Vinil é um programa que se presta a isso. Por hora, de projeto nesse momento, é só isso que eu tenho, que eu estou tocando.